
Contar uma história de 120 anos é um pouco pretensioso. Pensei em organizar os fatos em ordem cronológica, listar conquistas ou revisitar episódios marcantes. Mas, depois de 25 anos vivendo a Araujo por dentro, percebo essa empresa como se ela fosse uma pessoa com corpo, mente e alma. Essas três dimensões aparecem de forma clara na maneira como a Araujo pensa, opera e se relaciona com seus colaboradores e clientes.
A alma da Araujo está nos valores que moldaram a empresa desde o início. Ela nasce com seu fundador, Modesto Carvalho de Araujo, um homem conhecido por sua firmeza quando o assunto era fazer o que é certo, do jeito certo. Ética e confiança, para ele, eram inegociáveis. Essa postura rapidamente construiu uma relação de respeito e credibilidade. Há registros de clientes que enviavam cheques em branco, pedindo apenas que os produtos fossem encaminhados. Médicos indicavam a farmácia com a segurança de que suas prescrições seriam seguidas com respeito integral.

Cheque em branco enviado por cliente para a Araujo
Durante a pandemia de gripe espanhola, em 1918, quando o acesso a medicamentos era escasso e a demanda crescia rapidamente, muitos estabelecimentos aumentaram seus preços. Modesto tomou outro caminho, manteve os valores e distribuiu gratuitamente o quinino, medicamento utilizado no combate à doença. Esse episódio ajuda a explicar algo que permanece verdadeiro até hoje: para nós, saúde sempre foi coisa séria.
É curioso pensar que tudo isso aconteceu muito antes de existirem escolas de marketing ou conceitos sofisticados de experiência do cliente. Ainda assim, Modesto já compreendia algo essencial: a confiança como valor e o fato de que, quando alguém precisa de um medicamento, aquilo não pode esperar.
Durante um tempo ele morou nos fundos da loja. A campainha que anunciava a chegada de um cliente ficava ao lado da sua cama. Se alguém aparecesse durante a madrugada, ele se levantava para atender, preparar o medicamento e ajudar quem precisasse. Surgiu então o primeiro plantão noturno da cidade, algo que hoje parece natural, mas que na época era inovador. Consolidando a certeza de que o cliente, ali, sempre podia contar
Essa alma nasceu inquieta, com curiosidade constante por novas soluções. A visão de atender o cliente onde ele precisava fez surgir o Drogatel, considerado o primeiro serviço telemarketing do Brasil. Em outro momento, a empresa buscaria referências internacionais para desenvolver o conceito de drugstore. Em diferentes períodos, sempre houve a mesma pergunta por trás das decisões: como podemos resolver melhor o problema do cliente?
Mas uma alma, por si só, não se materializa. É preciso um corpo capaz de dar forma a esse propósito.
Como em todo corpo, a “cara” aparece nas lojas e nos serviços, enquanto a retaguarda cuida das estruturas que fazem a operação acontecer. É dessa integração que vem a sua força. Para encantar o cliente na ponta, a retaguarda precisa fazer bem o básico: garantir que o cliente encontre o que procura, porque, quando isso não acontece, todo o resto perde valor. Para isto, a empresa sempre prezou em ter um centro de distribuição eficiente, investimento de capital em estoque e um sistema de gestão supply.
Esse corpo também sempre carregou uma preocupação estética e funcional. Desde a primeira loja, já havia um cuidado evidente com organização e conforto. Mais tarde, na Matriz, os trenzinhos que circulavam levando produtos até o caixa mostravam uma busca constante por agilidade e eficiência. Com o tempo, esse corpo foi se transformando para acompanhar as mudanças do varejo e das necessidades das pessoas, retirou o balcão tradicional, adotou o autosserviço e mudou completamente a forma como os clientes compravam. Garantir que o cliente encontre tudo o que precisa sempre foi uma ambição levada a sério, e ela se expandiu para muito além dos medicamentos. Já em 1927, anúncio da época traduz bem esse espírito ao destacar “o maior sortimento do estado” e completar com um “etc., etc.”, uma forma simples, mas muito simbólica de dizer que sempre havia mais.

Anúncio do dia 7 de setembro de 1927, no jornal Minas Geraes.
Na década de 90, foi oficializado o conceito de drugstore. As principais lideranças da empresa foram aos Estados Unidos estudar esse modelo, que trazia a proposta de one stop shop. A leitura era clara: os clientes teriam cada vez menos tempo e a conveniência de resolver tudo em um só lugar se tornaria um diferencial competitivo. Vieram, então, lojas maiores e mais completas, soluções criativas para dar mais agilidade ao atendimento e novos formatos que ampliaram o papel da loja como um verdadeiro centro de soluções para saúde, beleza, infantil e conveniência. A criação do primeiro drive-thru do setor é mais um exemplo dessa transformação.
Esse corpo aprendeu desde cedo a se movimentar. As primeiras entregas eram feitas utilizando os meios disponíveis na cidade como bonde, evoluiu para a famosa frota de fusquinhas do Drogatel. Com o tempo vieram novas soluções logísticas, algoritmos para chegar mais perto e mais rápido em cada cliente, em qualquer lugar do país.

Frota dos fusquinhas Drogatel no alto da avenida Afonso Pena: pioneirismo nas entregas.
Se a alma orienta o propósito, o corpo permite executá-lo e a mente da Araujo aparece na clareza estratégica que sustenta essa construção.
Ao longo de quatro gerações, a família fundadora tomou uma decisão que parece simples, mas rara no mundo empresarial, manter foco absoluto no mesmo negócio. Uma família dedicada ao trabalho, com energia direcionada para entender, aprimorar e evoluir dentro do varejo farmacêutico. Essa clareza também se reflete na forma de gestão, desenvolvendo uma cultura forte de método, disciplina e orientada a resultados. No varejo, sabemos que são os detalhes que fazem a diferença.
Expandir, para a Araujo, nunca significou apenas abrir mais uma loja. Expandir também significa consolidar presença, conquistar relevância em cada mercado e avançar com consistência. Existe também um pragmatismo importante nessa mentalidade. O crescimento da Araujo sempre foi sustentado pelos próprios resultados do negócio. Não foi um crescimento artificial, mas uma expansão consistente e sustentável.
Mas, ao olhar para essa história, talvez o mais interessante seja perceber que, embora eu fale da Araujo como uma pessoa, ela nunca existiu sozinha. Como toda grande construção humana, ela ganha vida por meio de outras pessoas. Histórias como a do Sr. Irineu reforçam isso. Ele está na empresa há mais de 80 anos. Começou como vendedor e acompanhou diferentes fases da companhia, atravessando gerações e ajudando a transmitir a cultura que sustenta tudo isso. São milhares de histórias como estas que começaram suas carreiras na empresa e se identificaram com o desafio, dedicando seus melhores anos de vida ao negócio para dar voz à sua alma, movimento ao seu corpo e direção à sua mente.
Talvez esteja aí uma das razões de uma empresa atravessar mais de um século sem perder sua identidade, preservar sua essência e, ao mesmo tempo, renová-la continuamente por meio das pessoas. A alma segue guiada por valores. O corpo continua evoluindo para servir melhor. A mente permanece disciplinada para crescer com consistência. Mesmo depois de 120 anos, a Araujo continua olhando pra frente com a mesma inquietude que marcou o seu início, afinal os próximos 120 anos começam agora.
Araujo, meus parabéns cheio de orgulho pelos seus 120 anos.
Do seu eterno estagiário, André Giffoni.
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