
Toda vez que olho para a quantidade de assuntos que passam pela mesa de um Diretor de Marketing em um único dia, lembro daquela velha frase que repito há anos por aqui: Marketing é como um coração de avó, abraça todo mundo. A diferença é que a avó tinha tempo. O CMO de 2026, não.
Nos últimos meses, conversando com dezenas de CMOs das maiores marcas do país para a curadoria do CMO Summit, percebi que, apesar das particularidades de cada negócio, os desafios se repetem com uma frequência que assusta.
Empresas de setores e portes diferentes têm dores parecidas. E foi ao consolidar todas essas conversas que cheguei a um número curioso: são exatos 38 desafios diferentes sendo enfrentados pelo Marketing brasileiro neste momento. Trinta e oito, para um profissional. Só que, no caso do CMO, precisa comandar todos eles.
Esses 38 desafios são traduzidos em atribuições que cabem dentro de sete grandes blocos. Logo, o profissional de Marketing precisa dominar todos os sete. Vamos a eles.

1º desafio principal: fazer o Marketing gerar receita de verdade
Esse é o maior de todos e por isso vem em primeiro lugar. Por anos defendi neste espaço que o Marketing precisava recuperar o lugar perdido na mesa do CEO, e a forma como isso está acontecendo hoje é muito mais radical do que eu imaginava: o Marketing não está apenas conversando com Vendas, está engolindo Vendas.
Diretorias comerciais inteiras estão passando a responder para o Marketing ou minimamente trabalhando de fato alinhados. Áreas de revenue, pricing e BI estão migrando para dentro da estrutura e o bônus de muitos líderes de Marketing estão atrelados a faturamento incremental.
Dentro desse bloco moram seis sub desafios:
Assumir a meta de receita direta na estrutura de Marketing
Unificar comercial, Marketing, produto e CS sob a mesma liderança
Construir áreas de revenue, pricing e BI dentro do guarda-chuva da área
Atrelar bônus e variável da liderança a faturamento incremental, e não mais a métricas de funil isoladamente
Monetizar a base de clientes atual via cross-sell e up-sell, em vez de depender só de aquisição
E, em alguns casos, pivotar, expandir ou até mesmo reduzir o portfólio para aumentar o LTV do cliente que já está dentro de casa

2º desafio principal: acabar de uma vez com a guerra fria entre Marketing e Vendas
Faz tempo que escrevo aqui que essa briga é maléfica para o Marketing, mas ela continua. A diferença é que agora ela tem nome e custo: gargalo. O trabalho do Marketing, quando bem feito, é traduzir a teoria e a estratégia em pipeline. Não é uma apresentação bonita, é número que o vendedor reconhece como dele. E isso só acontece quando as duas áreas dividem espaço, dados e meta.
São três sub desafios aqui:
Traduzir a linguagem do Marketing para o que o time de vendas reconhece como pipeline na ponta
Integrar tecnologicamente as áreas, com IA cuidando do lead scoring e da fricção na passagem do lead
Desenhar metas conjuntas entre Marketing, Vendas e CS, na lógica de "ou todo mundo ganha junto, ou ninguém ganha"

3º desafio principal: integrar o mundo real, físico e digital, ao mesmo tempo
Trazer o cliente até a porta sempre foi tarefa do Marketing. O problema é o que acontece depois que ele entra. No varejo físico, a operação não pode expulsar o cliente que o Marketing trouxe. No digital, IA está sendo usada para orquestrar vitrine e preço em tempo real.
Lojas físicas continuam abrindo enquanto a digitalização avança, com metas agressivas dos dois lados. E aí entra o B2B, que é uma categoria à parte: ciclos de venda longos exigindo provas curtas, transição da venda transacional para a venda consultiva e a difícil tarefa de vender para o profissional dentro de uma experiência de B2C - já que boa parte das vendas online de B2B hoje passa por marketplaces.
São seis sub desafios dentro desse bloco:
Aumentar ticket médio e itens por cesta no balcão e digital
Usar IA para conversão dinâmica - vitrine e precificação em tempo real - no e-commerce
Alinhar preço, sortimento e experiência entre físico e digital sob metas agressivas de venda
Mensurar o resultado de Marketing B2B em ciclos de 12 a 18 meses, em linguagem que o CEO entenda
Migrar da venda transacional de produto para a venda consultiva e estratégica de plataforma
Adaptar a estratégia ao fato de que marketplaces viraram o canal majoritário de venda online, mesmo em B2B

4º desafio principal: reposicionar a marca em um mercado que não para de mudar
Esse é um dos desafios mais subestimados da lista. Enquanto todo mundo fala de IA, há uma transformação silenciosa acontecendo no posicionamento das marcas. Ela tem sete frentes simultâneas e nenhum profissional entrega todas, mas todos entregam pelo menos três delas ao mesmo tempo:
Pivotar o modelo de negócio para algo maior do que o core original
Expandir de mono para multiproduto, sendo reconhecido em novas categorias além daquela que fez o nome da marca
Competir contra novos entrantes ágeis - sejam marcas chinesas, sejam concorrentes de "hype" e até pirataria
Descommoditizar marcas em mercados saturados e sensíveis a preço
Educar o mercado para categorias que ainda não existem, criando hábitos novos ou sensibilizando para riscos não percebidos
Brasileirizar marcas globais, adaptando estratégias mundiais aos rituais e à cultura local sem trair a essência da marca
Manter consistência e crescimento sustentável depois de um pico repentino de demanda, evitando que o hype vire ressaca

5º desafio principal: chamar atenção quando a atenção virou commodity
A fragmentação da mídia não é novidade, mas os efeitos dela só agora estão sendo plenamente sentidos. Capturar atenção em ambiente saturado é um dos exercícios mais caros do Marketing hoje, e ele não se resolve com mais verba: se resolve com mais relevância.
São quatro sub desafios aqui:
Rejuvenescer marcas tradicionais ou centenárias para conectar com Z e Alfa
Destacar-se em um cenário de canais pulverizados, ruidosos e saturados
Gerir crises e proteger reputação em ambientes digitais voláteis e polarizados
Migrar do Marketing de interrupção para conversas autênticas, trabalhando com creators e garantindo que eles construam marca, e não apenas barulho

6º desafio principal: parar de fazer pilotos de IA e começar a operar com IA
Estamos há três anos falando de Inteligência Artificial e a maior parte das empresas continua na fase do "vamos testar um prompt". Os profissionais que estão à frente já saíram dessa. Estão automatizando workflows, otimizando para agentes e LLMs, construindo modelos de atribuição que falam com o CFO e organizando o stack de tecnologia que virou Frankenstein nos últimos cinco anos.
São quatro sub desafios densos aqui:
. Sair dos pilotos e prompts básicos para automação de workflow com ROI mensurável
Vencer no GEO - Generative Engine Optimization - para garantir que a marca seja recomendada por agentes e LLMs (e quem ainda não está pensando nisso, comece hoje, porque o SEO de 2010 não salva ninguém em 2026)
Construir modelos de atribuição e mensuração que provem o valor financeiro do Marketing e do branding para o board e para o CFO
Estruturar o stack de Martech, organizar dados "Frankenstein" e unificar a fonte da verdade tecnológica

7º desafio principal: entregar experiência personalizada e gerir o time que faz isso acontecer
Esse é o desafio mais humano da lista, e talvez um dos mais difíceis. A jornada do consumidor virou de cabeça para baixo: as pessoas pulam entre Searching, Scrolling, Streaming e Shopping de forma imprevisível, e a hiperpersonalização em escala deixou de ser bônus para virar mínimo. Mas tudo isso depende de pessoas e por isso esse desafio se conecta diretamente com gestão e estrutura.
São oito sub desafios reunidos aqui:
Lidar com o fim da jornada linear - consumidores que saltam entre os "4 Ss" sem aviso
Hiperpersonalizar em escala via CRM, garantindo que milhões de clientes se sintam únicos
Integrar estoque, experiência e atendimento entre o físico e o digital sem fricção
Reter, rentabilizar a base e combater churn. É cuidar do "aquário" em vez de só pescar fora dele
Quebrar silos entre Marketing, Vendas, Tech e Produto, unificando estruturas que historicamente não se conversaram
Lidar com o turnover alto de CMOs e a pressão constante de se reinventar dentro da própria cadeira
Crescer faturamento gastando menos orçamento, com eficiência operacional como nova régua
E não menos importante: cuidar da saúde mental e da liderança de equipes sob pressão tecnológica e metas crescentes
O que tudo isso significa
Trinta e oito desafios. Sete grandes blocos. Um profissional de Marketing no meio de tudo isso, especialmente o CMO que é o grande responsável. Quando comecei o Mundo do Marketing, em 2006, listávamos cinco grandes desafios da área e isso já parecia muito. Hoje, são quase oito vezes mais.
A profissão ficou maior, mais densa, mais cobrada e, paradoxalmente, mais valiosa. Quem entendeu isso já não compete mais com o colega da mesa ao lado, compete com a possibilidade de não estar à altura do que o negócio precisa. Esse é o jogo. E é também por isso que continuo dizendo, depois de duas décadas escrevendo sobre o tema, que Marketing é a melhor profissão do mundo.
Agora, te pergunto: dos 38, quantos estão na sua lista hoje? E dos sete, em qual você está mais atrasado? E quais desafios ficaram de fora?
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