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A IA Chegou. Mas sua stack tecnológica estava pronto para recebê-la?

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Tempo de Leitura 1 min

A IA Chegou. Mas sua stack tecnológica estava pronto para recebê-la?

Tem uma cena que se repete em painéis de marketing por todo o Brasil. Alguém sobe no palco, mostra um slide com uma dúzia de logos de fornecedores conectados por setas e diz que aquilo é a "arquitetura de CRM" da empresa. A plateia acena. Ninguém pergunta se as setas funcionam de verdade. Ninguém pergunta quem é o dono de cada dado que trafega entre elas. E ninguém — absolutamente ninguém — pergunta o que acontece quando a IA tenta tomar uma decisão dentro desse labirinto.

Essa pergunta, porém, não vai ficar sem resposta por muito tempo. A IA agêntica — aquela que não apenas responde perguntas, mas age, decide e executa tarefas de forma autônoma — está chegando ao núcleo do CRM. E quando ela chegar, vai encontrar o que sempre esteve lá: dados ruins, integrações frágeis, responsabilidades difusas e uma ilusão de stack que na prática é uma coleção de silos caros com API.

Você não tem um CRM. Você tem um museu de decisões passadas.

O mercado global de CRM chegou a US$ 80 bilhões em 2024 e cresce a dois dígitos. Os grandes vendors e plataformas estão correndo para embalar IA em tudo. Prometem agentes autônomos que qualificam leads, atendem clientes e disparam campanhas sem intervenção humana. Outros querem estar em todo lugar onde o vendedor já trabalha. O ritmo de inovação é real e acelerado.

O problema não é a velocidade da inovação. O problema é que a Forrester entrevistou clientes dos principais CRMs do mercado e encontrou um padrão desconcertante: as empresas não conseguem acompanhar o ritmo de lançamentos dos próprios fornecedores.
Os vendors estão lançando inovação tão rápido e em tal quantidade que os clientes não sabem por onde começar. O resultado é que cada atualização que deveria simplificar acrescenta mais uma camada num sistema que já estava sobrecarregado.

Aqui está o ponto que a maioria dos líderes de marketing prefere não encarar: o CRM, na maior parte das empresas, não é uma plataforma de inteligência. É um arquivo histórico mal curado, alimentado por times diferentes com critérios diferentes, integrado com sistemas que ninguém sabe mais quem implementou. É um museu. E você está tentando colocar um piloto automático num museu.

A IA não vai consertar a sua stack. Ela vai expô-la.

Quando o Gartner diz que 60% dos projetos de IA serão abandonados até 2026 por falta de dados prontos, está descrevendo exatamente esse cenário. As empresas estão comprando inteligência artificial para operar sobre uma fundação que não suporta inteligência artificial. Não é falha do modelo. É falha de governança e de uma ilusão coletiva de que tecnologia nova resolve problema de arquitetura velha.

A IA agêntica é particularmente implacável nesse sentido. Diferente de um chatbot que responde perguntas, um agente age: executa tarefas, chama APIs, toma decisões em sequência, sem esperar instrução humana entre cada passo. Para isso funcionar, ele precisa de dados confiáveis, contexto consistente e permissões claras. Se algum desses três elementos falhar — e numa stack fragmentada, pelo menos um sempre falha — o agente não para. Ele continua agindo. Sobre premissas erradas. Em escala.

O Gartner Hype Cycle for CRM Technologies 2025 é explícito: a tecnologia de raciocínio por trás dos agentes carece de interpretabilidade, e a natureza incerta de seus outputs dificulta a implantação em processos de alto risco. Traduzindo: mesmo os analistas que cobrem esse mercado há décadas estão dizendo que IA agêntica em CRM não é madura o suficiente para ser colocada em produção sem critério e a maioria das empresas está ignorando esse aviso porque o vendor prometeu ROI no próximo trimestre.


 O real problema de orquestração: não é tecnologia. São pessoas e poder.

Existe uma palavra que aparece em quase todo relatório de analista publicado em 2025 e 2026 sobre o futuro do CRM: orquestração. A Forrester diz que "orquestração importa mais do que automação." O Gartner diz que as plataformas vencedoras serão aquelas que conectam dados, inteligência e execução num sistema coerente. Tudo certo. Só que nenhum desses relatórios te conta a parte que dói: orquestração é, antes de qualquer coisa, um problema político. Não tecnológico.

Pense no seu cenário real. Você tem um fornecedor de CRM, outro de automação de marketing, outro de dados de terceiros, outro de analytics, talvez uma CDP, talvez um contact center com IA própria. Cada um desses fornecedores tem um executivo de conta que quer expandir o contrato. Cada um entrega relatórios que mostram o valor do próprio produto de forma isolada. Dentro da empresa, cada área usa um desses sistemas como seu feudo — e ninguém quer ceder dados ou controle para uma visão unificada que beneficiaria o cliente mas diluiria seu próprio poder interno.

Nesse ambiente, "orquestrar fornecedores" não é uma decisão técnica de integração de sistemas. É uma decisão estratégica sobre quem detém a visão do cliente, quem é responsável pela qualidade do dado e quem tem autoridade para dizer "não" quando um fornecedor propõe uma funcionalidade que fragmenta mais a stack do que resolve.

O novo modelo: três camadas que precisam de donos, não de ferramentas.

A transição que o mercado está vivendo de CRM como sistema de registro para CRM como plataforma de orquestração inteligente  exige uma reorganização que vai muito além de comprar licença nova. Exige definir com clareza quem é responsável pelo quê em três camadas distintas.

CAMADA 01 — DADOS & CONTEXTO

Quem é o dono da qualidade do dado? Sem resposta clara para essa pergunta, a IA não funciona — ela amplifica o erro. Essa camada precisa de um processo contínuo de higienização, governança e definição do que significa "verdade" para cada atributo do cliente.

CAMADA 02 — INTELIGÊNCIA & DECISÃO

Quais decisões a IA pode tomar sozinha — e quais precisam de validação humana? Definir os limites de autonomia não é fraqueza: é governança. Sem isso, o agente vai agir onde não deveria, e o risco vai escalar junto com o uso.

CAMADA 03 — EXECUÇÃO & ORQUESTRAÇÃO

Quem garante que o sinal certo chega no canal certo, no momento certo, com a oferta certa? Essa é a camada onde os fornecedores se conectam — e onde a ausência de um arquiteto responsável cria o caos de duplicações, conflitos e experiências inconsistentes.

Não é coincidência que os vendors mais avançados estejam construindo exatamente essa camada de orquestração e observabilidade dentro dos próprios produtos. Eles sabem que o campo de batalha dos próximos anos não é funcionalidade. É quem controla a arquitetura de decisão do cliente. E se você não tiver alguém interno com autoridade e visão para governar isso, os fornecedores farão esse trabalho por você no interesse deles.

O que fazer agora: a pergunta que separa quem vai liderar de quem vai correr atrás.

A Forrester publicou em junho de 2026 o retrato mais honesto do mercado de IA agêntica até agora: três quartos das lideranças empresariais dizem estar adotando IA agêntica. Uma minoria ínfima tem algo funcionando em produção real além de chatbots disfarçados de agentes. A empresa que vai liderar o próximo ciclo não é a que tem mais agentes. É a que construiu a trilha pela qual eles vão correr.

Isso significa uma coisa muito específica para quem cuida de CRM e Customer Engagement: antes de comprar mais tecnologia, você precisa responder três perguntas que nenhum fornecedor vai te ajudar a responder, porque a resposta pode diminuir o contrato deles.

  • Seus dados estão prontos para sustentar decisões autônomas? Não os dados que você acha que tem — os dados que a IA vai realmente encontrar quando for agir.

  • Você tem alguém com autoridade real para dizer não a um fornecedor quando o produto dele piora a arquitetura do conjunto?

  • Sua equipe sabe operar num modelo onde parte das decisões de engajamento será tomada por agentes que precisam ser treinados, monitorados e corrigidos como se fossem colaboradores?

Se a resposta para qualquer uma dessas três perguntas for "ainda não", a próxima camada de IA que você comprar vai gerar mais complexidade do que resultado. E a stack vai continuar rachando — só que agora com custo maior e velocidade maior para os clientes perceberem.

A boa notícia é que o problema não é irreversível. Mas ele exige uma mudança de postura que vai além do comitê de inovação e do budget de tecnologia. Exige que alguém na sua organização pare de gerenciar fornecedores e comece a arquitetar o sistema. Que alguém pare de comprar funcionalidades e comece a construir fundação. Que alguém, finalmente, assuma a responsabilidade pelo que acontece quando a IA age em nome da sua marca — e o cliente do outro lado é real.

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João Gabriel Ribeiro

João Gabriel Ribeiro

Head of E-commerce, Growth & CRM na Azul Linhas Aéreas Brasileiras

João Gabriel Ribeiro é Head de E-commerce, Growth & CRM na Azul Linhas Aéreas. É publicitário de formação com sólida experiência em desenvolver estratégias Customer Centric em grandes marcas em diferentes indústrias como: General Motors, Lojas Renner, Magazine Luiza, Latam Pass e Editora Abril.

AUTOR

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Head of E-commerce, Growth & CRM na Azul Linhas Aéreas Brasileiras

João Gabriel Ribeiro é Head de E-commerce, Growth & CRM na Azul Linhas Aéreas. É publicitário de formação com sólida experiência em desenvolver estratégias Customer Centric em grandes marcas em diferentes indústrias como: General Motors, Lojas Renner, Magazine Luiza, Latam Pass e Editora Abril.

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