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O sistema operacional do growth: como rodar Marketing como portfólio de apostas

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Customer Engagement

O sistema operacional do growth: como rodar Marketing como portfólio de apostas

Antes que alguém se empolgue com o título, não, este não é um texto sobre bets nem um guia para lucrar no jogo de domingo. A aposta aqui é outra, a que todo mundo de Marketing faz o dia inteiro sem chamar pelo nome. Em um artigo anterior já defendi que, em medição, manter um bom loop de aprendizado importa mais do que ter o modelo perfeito. Ficou faltando mostrar como esse loop roda no dia a dia, e é isso que faremos agora.

Durante muito tempo, conduzi Marketing como uma lista de tarefas. Existiam as campanhas do trimestre, os canais de sempre e as metas a cumprir. As entregas aconteciam, mas, quando olhava para trás, percebia que passávamos muito mais tempo otimizando o que já conhecíamos do que descobrindo novas oportunidades. No fim do ano, o aprendizado real era pequeno.

A mudança veio quando deixei de pensar em campanhas e passei a pensar em apostas. Cada real investido em Marketing é uma aposta. Existe um retorno esperado, existe incerteza e existe um custo caso ela dê errado. O objetivo não é acertar todas, mas construir um portfólio cujo valor esperado seja positivo ao longo do tempo. Algumas apostas inevitavelmente vão falhar. O importante é que o conjunto gere retorno.

Quando você passa a enxergar Marketing dessa forma, seu trabalho deixa de ser simplesmente executar campanhas. Ele passa a ser administrar um portfólio de investimentos. É esse modelo que considero o verdadeiro sistema operacional do growth.


Os dois erros mais comuns

Antes de falar de como fazer, vale falar como é possível errar – porque eu já caí nos dois.

O primeiro é a máquina de otimização. Você fica tão bom em espremer o que já funciona que para de testar. O CAC vai ficando ótimo, os relatórios ficam lindos, e um belo dia o canal satura e você não tem nada novo na manga. Comeu a semente que ia plantar no ano seguinte.

O segundo é o oposto: testar tudo, o tempo todo, sem critério nenhum. Vinte experimentos rodando, nenhum com hipótese clara, nenhum com amostra que preste. No fim você junta um monte de resultado inconclusivo e fica com a sensação de que aprendeu. Não aprendeu. Isso é caro e ainda vicia, porque parece movimento.

Carteira de apostas mora no meio dos dois. Você explora de propósito, com método, e sabe exatamente quanto está apostando em cada coisa.

Separa o dinheiro em dois baldes

A primeira decisão, e a mais importante, é dividir o dinheiro em dois baldes. Um é o que já funciona, aquilo que você sabe que dá retorno. O outro é o balde de descoberta, a grana que você reserva para apostar em algo que ainda não sabe se vinga.

Parece óbvio, mas quase ninguém protege o segundo balde. Ele é sempre o primeiro a ser cortado quando a meta do trimestre aperta. E aí acontece o que eu falei ali em cima: você vive de curto prazo e nunca constrói o próximo canal. Tenho aprendido que essa fatia precisa ser fixa e tratada como intocável, algo entre 10% e 20% da verba, dependendo de quão maduro tá o mix. Não é número mágico. O que importa é que exista e que não seja o primeiro a morrer quando o mês fecha ruim.

Uma coisa que muda o jogo: o balde de descoberta não precisa bater meta de retorno. A meta dele é gerar aprendizado. Se você cobrar o ROI de curto prazo do dinheiro de exploração, matou a exploração no berço.

O tamanho da aposta importa

Dentro de cada balde, nem toda aposta merece o mesmo tamanho. Duas perguntas que vale pensar na hora de decidir quanto botar: qual o nível de convicção e qual o custo de estar errado.

Aposta barata e reversível, daquelas que se der errado você desliga na sexta e ninguém morre, quase não pede reflexão. Roda, olha o resultado, segue. O caro é quando a aposta é grande e difícil de desfazer. Entrar num canal novo que exige contrato, produção pesada, três meses de ramp-up.

E aqui eu vou ser honesto: essas apostas grandes estão cada vez mais difíceis de justificar. Elas engessam o orçamento, te prendem numa decisão por meses e, se derem errado, você comeu em um movimento só quase tudo que tinha para o ano. Em um mercado que muda rápido, amarrar uma fatia enorme numa única aposta irreversível é um risco que tenho procurado evitar ao máximo. 

Quando ela é inevitável, tenho aprendido a não decidir no feeling, antes de botar grana grande, o melhor é ter uma leitura de verdade, e é aqui que entra o que discuti naquele artigo, medição funciona mais como bússola do que como GPS, e aposta grande pede a bússola calibrada antes com experimento, geo e conversion lift, não depois de já ter torrado o orçamento.

Nada disso funciona sem ritmo

Se não tiver uma cadência fixa pra revisar as apostas, exploração vira aquela coisa que a gente "vai fazer quando sobrar tempo". Nunca sobra. O loop precisa de um relógio.

Na prática é um ritual periódico em que você olha a carteira inteira: o que tá dando certo e merece mais grana, o que empatou, o que tá na hora de matar. Pode ser mensal, pode ser a cada ciclo, o período importa menos que a regularidade. O que a cadência faz é pegar aprendizado solto e transformar em aprendizado que se acumula. Sem ela, cada teste é um evento isolado. Com ela, um teste alimenta o próximo, e o conjunto vai ficando mais esperto.


O calendário anual já nasce velho

E é justamente por causa disso que eu não acredito mais em calendário anual de Marketing. Aquele plano fechado em novembro, com as campanhas do ano inteiro amarradas e os budgets travados por trimestre, tá fadado a não funcionar num mundo que se mexe o tempo todo. Você planejou pra um cenário que em fevereiro já não existe mais, mas segue executando porque "tá no plano". É dinheiro andando no piloto automático enquanto o chão se move debaixo dos seus pés. Eu sou veementemente contra esse modelo, e acho que ele vai ficando mais insustentável a cada ano.

Isso não quer dizer viver de improviso. Tem uma coisa que precisa, sim, ser consistente ao longo dos anos, e é a construção do seu posicionamento. A tática você ajusta o tempo todo, a cada leitura de bússola. O posicionamento você constrói com paciência, tijolo por tijolo, sem mudar de ideia a cada trimestre porque a moda virou. Essa diferença entre ajustar a tática e manter o posicionamento firme dá bastante pano pra manga, e é assunto pra um próximo texto.

Depois vem a parte difícil: matar aposta

De longe, o mais difícil é matar a aposta. E matar a tempo. O erro clássico é aquele teste que "tá quase lá". Ele nunca entrega, mas também nunca desanda de vez, e você fica alimentando por meses porque já investiu tanto que parar dói. É o custo afundado te comendo por dentro. A defesa que tenho visto funcionar é decidir a linha de corte antes de começar. Antes de rodar a aposta, ajuda escrever o que precisaria acontecer para chamar de sucesso, e o que faria desistir. Com a linha definida no frio, na hora quente você só olha e cumpre.

Isso pesa ainda mais quando a ideia é sua. Matar a aposta boa dos outros é fácil. Matar a sua, aquela que você defendeu com unha e dente na reunião, é o que separa quem gere carteira de quem só acumula projeto de estimação.

Como saber se a aposta prestou

E "deu certo", aqui, tem um sentido específico. Não basta o número de conversão que apareceu no painel. O que importa é se aquilo foi incremental: se aconteceu por causa da aposta ou aconteceria de qualquer jeito. Uma aposta que parece vencedora mas só estava colhendo venda que já ia cair no caixa é uma cilada, porque você aprende a lição errada e ainda escala ela.

Então, na hora de julgar, o que vale olhar é a incrementalidade. Volume no dashboard, sozinho, não me diz quase nada. E cada resultado desses volta pra dentro do sistema: vira prior mais afiado pro próximo ciclo, ajusta a expectativa de retorno de cada canal, muda como você divide os baldes na rodada seguinte. É aquele loop de aprendizado saindo do slide e virando rotina.

Quatro regras que tenho levado pra qualquer time

Se tivesse que resumir esse modelo em poucas ideias, seriam estas:

  1. Separa o dinheiro para explorar e colher, e protege o balde de explorar com unha e dente. Ele é o seu futuro pagando aluguel adiantado.

  2. Dimensiona a aposta pelo custo de errar. Barata e reversível, roda logo. Cara e difícil de desfazer, mede antes, e desconfia do tamanho dela.

  3. Bota uma cadência fixa pra revisar a carteira. Sem relógio, exploração não sai do papel.

  4. Decide a linha de corte antes de começar, principalmente das apostas que nasceram de ideias suas.

No fim, growth não é sobre acertar todas as apostas. É sobre aprender mais rápido do que os concorrentes.

Os times que evoluem mais depressa descobrem antes quais canais escalam, quais criativos perderam força e quais públicos realmente respondem. Mesmo errando bastante ao longo do caminho, terminam cada ciclo tomando decisões melhores do que tomavam no anterior. No longo prazo, essa é a vantagem competitiva que mais importa.

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Rodolfo Luz

Rodolfo Luz

Diretor de Marketing da Stone

Rodolfo Luz é formado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Ouro Preto e, desde então, se especializou em Marketing, Branding e Growth na Harvard Business School, INSEAD e Reforge. Iniciou sua carreira na Gerdau, uma das maiores siderúrgicas do Brasil, e ingressou na Stone em 2015 na equipe de Operações. Nos últimos seis anos, desempenhou diversos papéis na área de marketing da empresa. Atualmente, Rodolfo é Diretor de Marketing da Stone, onde lidera o portfólio de marcas, as comunicações e as iniciativas de crescimento.

AUTOR

Rodolfo Luz

Rodolfo Luz

Diretor de Marketing da Stone

Rodolfo Luz é formado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Ouro Preto e, desde então, se especializou em Marketing, Branding e Growth na Harvard Business School, INSEAD e Reforge. Iniciou sua carreira na Gerdau, uma das maiores siderúrgicas do Brasil, e ingressou na Stone em 2015 na equipe de Operações. Nos últimos seis anos, desempenhou diversos papéis na área de marketing da empresa. Atualmente, Rodolfo é Diretor de Marketing da Stone, onde lidera o portfólio de marcas, as comunicações e as iniciativas de crescimento.

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