
A trajetória de Felipe Yagi dentro da Volvo Cars foge ao padrão comum entre líderes de Marketing de grandes multinacionais. Inserido em um universo em que movimentações entre diferentes indústrias são frequentes, o executivo construiu uma carreira linear dentro da mesma companhia, desde o estágio até a atual posição de Diretor de Marketing, CX & Communications para América Latina e Brasil.
Apaixonado por carros desde pequeno, Yagi sempre nutriu o desejo de buscar uma carreira no setor automotivo. A princípio, a engenharia surgiu como a disciplina que o levaria ao ponto desejado. Mas foi no curso de Administração da USP que o profissional encontrou uma vocação baseada na síntese entre visão de negócios e capacidade de conexão com o consumidor.
“Quando tive os primeiros contatos com as matérias de Marketing na faculdade, entendi que talvez esse fosse um caminho que combinaria comigo. O caminho de entender bem o negócio, olhar para comunicação, ter conexão com vendas e com o negócio no dia a dia”, narra o executivo em entrevista ao Mundo do Marketing.
Vivendo a realidade da Volvo há mais de uma década, Yagi se mantém presente por uma combinação entre propósito de marca, dinamismo interno e oportunidades recorrentes de desenvolvimento – elementos que transformaram a jornada em uma rica sequência de novos ciclos dentro da mesma organização.

Aprendizados distintos dentro de uma mesma marca
Ao longo de 11 anos, o Diretor transitou por múltiplas áreas de Marketing e teve uma experiência internacional relevante na África do Sul, onde liderou a área em um contexto de reestruturação total do negócio. O projeto envolvia um plano de turnaround de cinco anos, com impacto não apenas na comunicação, mas em toda a operação, incluindo vendas, pós-venda e logística.
A experiência fora do Brasil contribuiu para a leitura sobre comportamento do consumidor e complexidade cultural, competências críticas para um profissional responsável por uma operação continental. Em um país marcado pela elevada diversidade de perfis sociais e culturais, o desafio de adaptar a comunicação sem perder a essência da marca tornou-se um aprendizado central.
“A África do Sul tem uma diversidade cultural muito grande. Estamos falando de um país que tem 11 idiomas oficiais. Isso foi muito interessante porque abriu um pouco a minha cabeça para prestar mais atenção em como os diferentes tipos de consumidor podem olhar para a nossa marca e interpretar a nossa comunicação”, explica.

A atuação em uma multinacional impõe um dos principais dilemas do Marketing contemporâneo: como preservar a consistência global da marca ao mesmo tempo em que se garante relevância local. No caso da Volvo, esse equilíbrio se estrutura a partir de pilares considerados inegociáveis — como segurança, sustentabilidade e, mais recentemente, eletrificação — combinados a adaptações específicas por mercado.
Nos últimos anos, a companhia tem ampliado o grau de autonomia regional, permitindo que estratégias de comunicação sejam moldadas conforme as particularidades de cada país. O desafio, segundo ele, está em traduzir conceitos universais para realidades distintas.
“O grande desafio é encontrar esse equilíbrio. Entender quais são os pilares fundamentais da marca que eu não posso abrir mão, mas também quais são as nuances locais que me permitem fazer uma boa conexão desses pilares com o público local”, diz.
Essa lógica levou a Volvo a investir em iniciativas inéditas, como ações com clubes de rugby na África do Sul, esporte central para a cultura local, e campanhas pontuais no Brasil com a skatista Rayssa Leal, conectando a marca a um público mais jovem e ampliando o repertório de comunicação.
“A forma como diferentes públicos interpretam uma mesma mensagem pode variar profundamente. Isso exige um nível maior de atenção às nuances culturais”, acrescenta Yagi.
Liderança baseada em repertório e escuta
A evolução de Yagi dentro da organização também foi acompanhada por uma transição significativa de perfil. O executivo passou de liderado para líder em um intervalo de tempo muito curto. Nesse processo, a construção de repertório a partir da observação de diferentes estilos de gestão teve papel determinante.
O executivo afirma que sua abordagem de liderança é fortemente influenciada pelas experiências acumuladas ao longo da carreira. A constante é reproduzir práticas que geraram bons resultados e evitar padrões que poderiam criar ruídos e comprometer o ambiente de trabalho.
A escuta ativa e a abertura para diálogo aparecem como pilares do modelo de gestão, em contraste com estilos mais impositivos. A referência, acrescenta Yagi, é sempre o próprio histórico: como gostaria de ter sido liderado em momentos anteriores da carreira.
“Tive contato com diferentes pessoas e isso fez com que eu conseguisse entender dores em diferentes níveis e ver como os meus líderes lidavam com essas dores. Então, tento me colocar no lugar do meu time e busco entender como eu reagiria a minha liderança. Se eu não gostei de algum exemplo, faço diferente. Não repito os mesmos erros”, diz.

Marca, legado e relevância em mercados competitivos
Inserido em um setor que passa por transformações aceleradas, impulsionadas pela entrada de novos competidores e pela evolução tecnológica, Yagi aponta que o fortalecimento de marca se torna ainda mais crítico.
A chegada de novos players com produtos competitivos e faixas de preços agressivas eleva o nível de exigência. Nesse contexto, a diferenciação passa menos por atributos funcionais isolados e mais pela consistência de propósito e pela construção de valor ao longo do tempo.
“Estamos construindo uma marca para o futuro. A eletrificação tem nos ajudado a chegar em um público naturalmente mais jovem, consumidores que gostam de novas tecnologias, que gostam de testar e inovar. O mercado foi muito transformado, com uma quantidade gigante de novas marcas chegando. O grande desafio é encontrar uma boa maneira para nos diferenciar e fortalecer a nossa presença”, pontua o Diretor.

Para a Volvo, isso significa reforçar sua herança em segurança e inovação, ao mesmo tempo em que amplia sua capacidade de diálogo com novos públicos e acompanha as mudanças de comportamento do consumidor. No Brasil, uma das frentes nutridas pela empresa passa pela promoção de experiências de marca como ferramenta de aproximação com novos públicos.
No início de março, a Volvo levou ao Parque Villa-Lobos, em São Paulo, uma ativação centrada no modelo EX30, SUV 100% elétrico compacto. A estratégia partiu do conceito de performance aliada à segurança que caracteriza a marca e buscou traduzir esse posicionamento de forma sensorial, permitindo que consumidores vivenciassem atributos do produto além da comunicação tradicional.
“O carro elétrico é muito melhor em termos de condução do que um carro a combustão. Quando perguntamos para os consumidores que já têm um carro elétrico hoje se eles voltariam para um veículo a combustão, o número de pessoas que dizem que voltariam é quase zero”, diz.

Felipe Yagi no CMO Summit
Participando pela primeira vez do CMO Summit, Yagi avalia o evento como uma oportunidade relevante de troca entre profissionais de diferentes setores, ampliando repertório e perspectivas sobre os desafios do Marketing.
O executivo participa de um painel que discute posicionamento premium e excelência como diferenciais e reforça que a principal tensão está na necessidade de defender relevância diante da chegada de novos entrantes com propostas mais acessíveis e alto nível tecnológico.
Além da participação no painel, Yagi destaca o valor do evento como ambiente de aprendizado e troca entre lideranças de diferentes segmentos, permitindo ampliar a visão para além do próprio mercado de atuação.
“Muitas vezes nós ficamos isolados dentro do nosso mundo, falando só do nosso setor. Ter esse momento para escutar outros profissionais, entender os desafios que eles estão enfrentando e como estão lidando com isso é fundamental para ampliar repertório”, finaliza.
O CMO Summit acontece nos dias 25 e 26 de março, no Expo Center Norte, em São Paulo, reunindo lideranças para discutir os caminhos e transformações do Marketing nas organizações. Inscreva-se já!
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