
Poucas pessoas abrem mão do prazer de ser parte ativa de um círculo ligado aos próprios interesses, preferências, dúvidas ou dores. Elas tendem a enxergar os líderes e as figuras influentes em suas comunidades como agentes confiáveis, que devem ser ouvidos e, em muitos casos, imitados – um comportamento que configura um padrão importante para marcas, empresas e profissionais.
No contexto corporativo, construir uma comunidade passa necessáriamente pela identificação de dores comuns e da disposição genuína de contribuir com o desenvolvimento das pessoas. “A força desses ambientes está na troca contínua e na construção coletiva”, reforça Angelita Oliveira, CEO da Salespring, na roundtable ‘Comunidade é estratégia: Como lideranças femininas escalam influência e negócios’, parte do CMO Summit 2026.

Essa construção ocupa um papel estratégico na geração de influência, autoridade e crescimento de negócios. E atrás das cortinas do óbvio, lideranças femininas têm encontrado nestes espaços um caminho para transformar a proximidade em resultados concretos, desafiando estruturas pouco favoráveis ao desenvolvimento das mulheres no mercado de trabalho e promovendo reflexões relevantes em um cenário marcado por excesso de informação e disputa constante por atenção.
Escala baseada em conexão
Para que uma comunidade cresça de modo saudável, dois fatores são indispensáveis: consistência e propósito claro. O processo de desenvolvimento do Mulheres no E-commerce (MNE), liderado por Carol Moreno, CEO do projeto, é um exemplo disso. Estruturado a partir da geração contínua de valor para as participantes, o grupo cresceu de forma orgânica ao endereçar dores compartilhadas e responder necessidades reais.
O MNE nasceu de uma de uma dificuldade enfrentada por Carol, que encontrou pares nas experiências pessoais de mulheres que viriam a construir a comunidade. “Eu estava em um processo que durou cerca de seis meses quando, ao final, a pessoa com quem eu negociava me disse que havia gostado muito de mim, mas que o sócio dele era mais conservador. Quando questionei o que significava isso, ouvi que ele não fazia negócios com mulheres”, lembra a executiva.
Naquele momento, Carol percebeu que não havia nada que pudesse fazer para “deixar de ser mulher” e fechar um contrato. Isso gerou uma revolta muito grande. Como resposta, em meados de julho de 2007, nascia o Mulheres no E-commerce, um canal no YouTube que começou de forma despretensiosa e, hoje, conta com mais de 20 grupos ativos, com cerca de 10 mil mulheres participando ativamente e uma base de aproximadamente 60 mil mulheres.
“Começamos com um grupo pequeno, mas com uma dor muito clara. Quando reunimos pessoas com desafios parecidos, a evolução acontece mais rápido. A comunidade vira um espaço de aprendizado contínuo. E quando as pessoas percebem valor na troca, elas mesmas trazem outras pessoas. O crescimento acontece naturalmente” explica a CEO.

O ambiente criado pelo grupo fez com que conhecimento circulasse com rapidez, reduzindo barreiras e ampliando oportunidades para profissionais que enfrentavam problemas semelhantes aos da fundadora. Essa dinâmica também fortalece a influência das lideranças envolvidas. À medida que as trocas se intensificam, a comunidade se transforma em uma rede de apoio e desenvolvimento, criando um ciclo virtuoso de crescimento que contribui para a aceleração de aprendizado e desenvolvimento profissional.
O que aconteceu na prática para o MNE confirma uma teoria central no bê-á-bá de desenvolvimento de comunidades: a sensação de pertencimento é crucial e sobressai o volume de audiência. “Quando as pessoas sentem que fazem parte, elas contribuem, aprendem e ajudam a escalar o impacto. Isso permite criar conexões mais profundas. Isso gera confiança, e confiança é o que sustenta influência e negócios no longo prazo”, endossa Angelita.
Comunidade como ativo estratégico
A evolução de uma comunidade depende da plena integração com a estratégia corporativa. Dentro do contexto empresarial, comunidades funcionam como canais de escuta, relacionamento e inovação. Essa proximidade transformam grupos de pessoas em um ativo estratégico para o negócio. Ao reunir clientes, parceiros e profissionais do setor, empresas conseguem identificar oportunidades com mais rapidez e fortalecer vínculos de longo prazo.
“Comunidade é um espaço onde conseguimo ouvir de forma mais próxima. Isso nos ajuda a entender dores, antecipar demandas e ajustar estratégias com mais agilidade. Mas, acima de tudo, uma comunidade cria um ambiente de confiança. E quando existe confiança, o relacionamento deixa de ser transacional e passa a ser contínuo”, pontua Shirlei Lima, Superintendente SaaS do Grupo Dimep.

Apesar do potencial do canal, as executivas advertem que construir uma comunidade exige visão de longo prazo. Líderes não devem se esquecer que a consistência na entrega de valor e o alinhamento com um propósito claro são fatores determinantes para o crescimento sustentável. O erro mais comum é tratar o ativo como um projeto pontual. “Comunidades exigem cuidado contínuo. Não é algo que você cria e deixa rodando. É preciso estar presente, ouvir e gerar valor o tempo todo”, afirma Angelita.
Comunidades como resposta a barreiras estruturais
Vivendo o dia-a-dia do mercado corporativo, as executivas enfrentam mazelas estruturais que, não raro, acabam freando o desenvolvimento de carreira de profissionais femininas. Mais do que redes de relacionamento, as comunidades lideradas por elas funcionam como ambientes de acesso a oportunidades e fortalecimento coletivo.
Estruturada sob estes objetivos, a Women in Sales, liderada por Angelita, criou um ambiente de apoio ao crescimento profissional. “Acima de tudo, nós potencializamos o que as mulheres têm de melhor, especialmente quando olhamos para questões como a insegurança de uma profissional ao assumir uma cadeira de liderança”, explica a CEO.
Esse apoio vem se traduzindo em resultados concretos, com casos recorrentes de mulheres que conquistaram promoções, fecharam negócios que pareciam impossíveis ou avançaram para posições estratégicas empregando aprendizados ou simplesmente se empoderando com casos de inspiração vindos de outras mulheres que formam a comunidade.

As comunidades também são vistas como um portal de acesso a lideranças e tomadores de decisão. Participante de um destes grupos no início da carreira, Shirlei Lima teve a oportunidade de transformar seu nível de relacionamento profissional. “Eu era mentorada e hoje eu sou uma mentora. Participar de uma comunidade mudou o meu nível de acesso, de relacionamento com pessoas que tomam decisão”, disse.
O impacto é ainda mais relevante para mulheres que enfrentam camadas adicionais de desigualdade. “Uma mulher preta têm que se provar um pouquinho mais no mercado e é muito legal quando você está em uma mesa e consegue falar com a VP, com a diretora, e construir relacionamento”, finalizou a executiva.
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