O primeiro dia da NRF 2026, em Nova York, provou que o varejo global entrou definitivamente em uma fase de maturidade tecnológica e estratégica. As novidades e pautas da abertura da feira apontam para um setor menos focado em experimentação e mais orientado à execução, eficiência e geração de valor real para o consumidor.
Esse movimento dialoga diretamente com o protagonismo brasileiro no cenário global. O varejo nacional mostrou capacidade de adaptação, integração entre físico e digital e velocidade de implementação, mesmo em contextos econômicos desafiadores.
Os aprendizados do primeiro dia da NRF 2026 ajudam a compreender como o varejo global está reorganizando suas estratégias diante de um consumidor mais conectado, exigente e orientado por experiências integradas. Os insights apresentados oferecem referências práticas sobre o uso de tecnologia, dados e inteligência artificial na construção de jornadas mais eficientes, além de apoiar análises sobre posicionamento de marca, operação e relacionamento com o cliente em um ambiente de negócios cada vez mais competitivo.
1) O futuro deixou de ser promessa
O conceito “The Next Now” sintetiza o espírito da NRF 2026 de que o futuro do varejo acontece no presente. As soluções apresentadas já estão em operação e gerando resultados, especialmente em eficiência, personalização e escala. Ou seja, não é papo preditivo, mas ações existentes. O varejo que espera o cenário ideal perde relevância. A transformação acontece no presente, com decisões pragmáticas e execução consistente.

2) Agentic Commerce inaugura uma nova lógica de consumo
Um dos destaques do primeiro dia foi o painel que apresentou o Universal Commerce Protocol (UCP), uma iniciativa lançada em conjunto com grandes players como Google e Walmart. O padrão de código aberto visa unificar a comunicação entre agentes de inteligência artificial, permitindo que eles realizem parte do processo de compra autonomamente.
3) Inteligência artificial vira infraestrutura
A IA deixa de ocupar um papel experimental e passa a integrar o core do negócio. Ela sustenta operações, define sortimento, orienta pricing, otimiza logística e personaliza a jornada do cliente de ponta a ponta. O painel “Exhibitor Big Ideas” destacou que a inteligência artificial deve funcionar como uma estrutura integrada ao negócio, indo além de ferramentas pontuais para permeá-lo como infraestrutura inteligente.
4) Tecnologia só faz sentido quando resolve problemas reais
Os painéis reforçaram um consenso: inovação sem clareza estratégica gera frustração. O foco agora está em tecnologias que simplificam processos, reduzem custos e melhoram a experiência do consumidor. A participação da Louis Vuitton mostrou que a IA pode aprimorar a experiência do luxo sem descaracterizar a marca. No modelo apresentado, a tecnologia atua de forma discreta, apoiando a personalização em escala, ampliando o trabalho criativo e evoluindo o atendimento para um formato próximo ao de um concierge digital, sempre com governança clara e foco na confiança.

5) Dados se consolidam como ativo decisivo
Mais do que coletar informações, os varejistas estão estruturando modelos de governança de dados para transformar insights em decisões rápidas, precisas e acionáveis. A conversa destacou que o uso consistente de dados e inteligência artificial permite substituir uma rotina marcada por “apagar incêndios” por decisões mais organizadas e seguras. Com maior previsibilidade de demanda, integração entre áreas e capacidade de antecipar problemas, as empresas reduzem riscos no dia a dia e ganham agilidade para responder às mudanças do mercado.
6) Experiência do cliente segue como diferencial competitivo
Mesmo com avanços tecnológicos, a experiência continua no centro da estratégia. Personalização, conveniência e fluidez entre canais são apontadas como fatores-chave de fidelização e crescimento. O FairPrice mostrou que tecnologia só gera valor quando melhora a experiência de quem compra e de quem trabalha.
Ao usar dados no dia a dia da loja, testar soluções diretamente no chão de loja e apoiar as equipes com sistemas que facilitam rotinas e decisões, o grupo constrói uma experiência mais fluida, acessível e humana. A loja deixa de ser apenas um ponto de transação e passa a funcionar como um ambiente inteligente, que aprende com o comportamento do cliente e evolui continuamente para atender melhor.

7) Omnicanalidade deixa de ser diferencial
A integração entre físico, digital e mobile não é mais opcional. O consumidor transita entre canais sem perceber barreiras e o varejo precisa acompanhar esse comportamento de forma natural. A apresentação do FairPrice Group reforçou que a omnicanalidade já faz parte da base da operação. A loja do futuro apresentada funciona de forma integrada, conectando dados, sistemas e jornadas sem separar físico, digital ou mobile.
O cliente transita naturalmente entre canais, enquanto a tecnologia atua nos bastidores para reduzir atritos, dar clareza de informação e apoiar decisões em tempo real no ponto de venda. Nesse modelo, a integração não é percebida como inovação, mas como parte do funcionamento cotidiano da loja.
8) IA conversacional evolui para agente de compras
Assistentes inteligentes passam a atuar como verdadeiros vendedores digitais, entendendo contexto, histórico e intenção para recomendar produtos, ofertas e soluções em tempo real. No painel “Reescrevendo o playbook do comércio”, Michael Rubin, CEO da Fanatics, apresentou um modelo de varejo mais conectado à demanda real do consumidor.
A lógica defendida é a de reduzir ao máximo o tempo entre identificar o desejo do cliente e entregar o produto, operando com estruturas mais flexíveis e responsivas às mudanças de comportamento do mercado.
9) A loja física se reinventa
Longe de desaparecer, a loja física ganha o papel de espaço de experiência, relacionamento e construção de marca. Tecnologia e dados ajudam a tornar o ambiente mais eficiente e relevante. Esse ponto ganhou profundidade no painel com a Dick’s Sporting Goods, uma das maiores redes de artigos esportivos dos Estados Unidos.
A empresa foi apresentada como exemplo de varejista que transforma suas lojas físicas em espaços estratégicos de crescimento, mesmo em um cenário digitalizado.

10) Pessoas continuam no centro da transformação
Mesmo com automação avançada, a NRF reforçou que cultura, capacitação e engajamento das equipes são decisivos para transformar tecnologia em valor para o negócio. Os painéis da REI e do FairPrice Group reforçaram que, mesmo com o avanço da automação e da inteligência artificial, são as pessoas que determinam o sucesso da transformação no varejo.
A REI apresentou um modelo em que cultura organizacional, engajamento das equipes e alinhamento com propósito orientam decisões estratégicas, com tecnologia atuando como apoio, e não como substituição da experiência humana.
11) Ecossistemas abertos ganham protagonismo
Parcerias entre grandes players mostram que o futuro do varejo será colaborativo. Plataformas abertas e interoperáveis ampliam competitividade e aceleram a inovação. A apresentação de Michael Rubin também reforçou a ideia de que o varejo cresce quando deixa de operar de forma rígida e passa a enxergar o negócio como um ecossistema. Isso envolve reduzir intermediários, ganhar controle sobre a experiência de venda e evitar excessos de estoque e desperdícios, criando modelos mais adaptáveis e alinhados à realidade da demanda.

12) Pequenos e médios negócios também fazem parte
O conteúdo do primeiro dia destacou que inovação não está restrita às grandes redes. Amazon e PepsiCo abordaram que organização de dados, clareza de proposta e foco no cliente são caminhos acessíveis a empresas de todos os portes. Na apresentação do FairPrice Group houve um exemplo prático de como testar soluções, usar dados no dia a dia e ajustar rapidamente a operação a partir do comportamento do cliente – algo que qualquer empresa pode fazer.
13) Eficiência operacional vira prioridade estratégica
Automação de estoque, supply chain inteligente e previsão de demanda baseada em IA foram temas recorrentes, reforçando a busca por margens mais saudáveis. O painel que reuniu Amazon e PepsiCo mostrou como a inteligência artificial deixou de atuar em pontos isolados e passou a conectar diferentes áreas da operação, do primeiro contato com o consumidor até a entrega final do produto. Os exemplos apresentados evidenciaram que atendimento, vendas e cadeia de suprimentos ganham eficiência quando passam a operar de forma integrada, apoiados por dados e tecnologia.

14) Propósito e responsabilidade seguem relevantes
Mesmo em um ambiente altamente tecnológico, sustentabilidade, impacto social e ética no uso de dados permanecem como expectativas claras do consumidor e do mercado. A palestra da REI ((Recreational Equipment, Inc.) mostrou que o crescimento no varejo está diretamente ligado à capacidade da marca de alinhar propósito, cultura organizacional e experiência do cliente.
Com uma estrutura cooperativa e uma base de mais de 25 milhões de membros, a empresa apresentou um modelo em que decisões estratégicas são guiadas pela missão, pelo engajamento das equipes e pela construção de relacionamento e comunidade, indo além da simples venda de produtos.
15) Inovação passa a ser contínua, incremental e testada na operação
O primeiro dia da NRF 2026 mostrou que a inovação no varejo deixou de estar associada apenas a grandes rupturas tecnológicas e passou a acontecer de forma contínua, integrada à rotina da operação. Casos como o FairPrice Group evidenciaram a lógica da loja como um “laboratório vivo”, onde novas soluções são testadas diretamente no chão de loja, ajustadas rapidamente a partir do comportamento do cliente e incorporadas ao dia a dia quando geram ganhos reais de eficiência e experiência.
Essa mesma abordagem apareceu em outros painéis ao reforçar que inovar hoje significa observar, testar, corrigir e evoluir constantemente, mesmo com recursos limitados. O foco está menos em grandes lançamentos e mais em melhorias sucessivas, baseadas em dados, escuta ativa do consumidor e proximidade com a operação. Isso reforça um modelo que torna a transformação mais sustentável, acessível e conectada à realidade do varejo.
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