
Depois de três anos como CMO da VR e mais de duas décadas liderando estratégias de Marketing em grandes empresas, Karina Meyer atravessa um momento incomum na carreira. Pela primeira vez em muitos anos, desacelerou a rotina executiva para abrir espaço a um plano que vinha amadurecendo há algum tempo: a vida acadêmica.
A pausa, porém, está longe de representar uma despedida do mercado corporativo. Pelo contrário. Karina pretende voltar a ocupar uma cadeira executiva enquanto consolida uma segunda frente profissional como professora e pesquisadora. O objetivo é transformar a experiência acumulada em conhecimento aplicado para formar novos profissionais de Marketing.
Mãe, meia-maratonista e doutoranda da ESPM, ela divide os dias entre a pesquisa, as salas de aula e uma rotina que passou a reservar espaço para algo que considera indispensável: refletir. O intervalo entre um ciclo e outro da carreira trouxe a oportunidade de olhar para a própria trajetória, reorganizar prioridades e questionar os rumos da disciplina à qual dedicou mais de 25 anos.
Foi dessa pausa que nasceram reflexões sobre o futuro do Marketing, a construção de marcas e o papel estratégico da área dentro das organizações. Na avaliação da executiva, a disciplina vive um paradoxo: nunca teve tantas ferramentas à disposição, mas perdeu parte da capacidade de integrá-las em uma estratégia consistente.
"O Marketing precisa voltar a ser o arquiteto da estratégia das organizações, senão corre o risco de ser reduzido apenas às ferramentas. O profissional passou a olhar apenas para a disciplina em que atua. Branding, CRM, growth, performance, CX. Tudo ganhou protagonismo, enquanto a visão sistêmica ficou em segundo plano", afirmou em entrevista ao Mundo do Marketing.
Na avaliação da executiva, essa fragmentação explica parte da perda de protagonismo da área dentro das empresas. Com funções migrando para vendas, tecnologia e experiência do cliente, o Marketing deixou de ocupar, em muitos casos, o papel de articulador da estratégia de negócios.

A volta à academia
A decisão de voltar à academia nasceu durante uma conversa no CMO Summit. Em um jantar promovido pelo evento, Karina conheceu Fernando Cesário, CMO da ESPM, que apresentou o recém-lançado doutorado profissional da instituição. A possibilidade de conciliar pesquisa e mercado acelerou um plano que ela imaginava colocar em prática apenas mais adiante.
Hoje, além do doutorado, ela já ministra aulas de pós-graduação e prepara novos cursos voltados ao desenvolvimento de uma visão mais integrada do Marketing. O contato com alunos também reforçou uma percepção que vinha amadurecendo nos últimos anos.
"Essa geração domina ferramentas como poucas antes dela. O desafio é fazer com que enxerguem que elas são apenas meios para construir valor de marca e relacionamento com consumidores. Sair da cadeira de executiva e ensinar o que o mercado precisa é valioso", contou.
A pesquisa de doutorado parte justamente de uma inquietação construída ao longo da carreira. Depois de atuar em empresas que investiam em propósito e impacto social, Karina percebeu uma dificuldade recorrente: muitas iniciativas geravam identificação, mas não influenciavam a decisão de compra.
Sua hipótese é que diversas organizações desenvolvem propósitos alinhados às próprias ambições, e não necessariamente às necessidades reais das pessoas. "O consumidor pode concordar com o discurso da marca e, ainda assim, não escolher aquele produto. Existe uma desconexão entre o propósito que a empresa constrói e o valor que ele gera na vida das pessoas."

Pensar antes de executar
Outro ponto que preocupa a executiva é o excesso de velocidade imposto pelas novas tecnologias. Embora reconheça o ganho de produtividade proporcionado pela inteligência artificial e pela automação, ela acredita que o mercado reduziu o espaço para reflexão.
"Estamos produzindo mais conteúdo, mais campanhas, mais entregas. Mas falta pensamento crítico. A tecnologia deveria liberar tempo para pensar melhor, não apenas para produzir mais", afirmou.
Na visão de Karina, a construção de brand equity continuará sendo um diferencial competitivo justamente porque exige algo que nenhuma ferramenta entrega sozinha: entendimento profundo do consumidor e capacidade de integrar estratégia, criatividade e negócios.

Uma pausa para ampliar repertório
Antes da VR, Karina construiu uma carreira em empresas como Unilever e ocupou posições de liderança em Marketing e Consumer Insights, trajetória que moldou sua visão sobre comportamento do consumidor, construção de marcas e estratégia. Longe da rotina intensa das grandes corporações, Karina afirma ter descoberto outro aprendizado importante. Ela passou a questionar o que chama de "monogamia corporativa": a dedicação exclusiva a um único projeto durante anos, limitando o repertório profissional.
Nos últimos meses, intensificou conversas com executivos, retomou contatos antigos, ampliou o networking e encontrou espaço para refletir sobre temas que dificilmente cabiam na agenda de uma CMO.
Mais do que uma transição de carreira, Karina enxerga esse momento como uma oportunidade para ajudar o Marketing a recuperar sua essência: conectar empresas e pessoas de forma estratégica, sem perder de vista o impacto que as marcas geram na vida dos consumidores.
"A vida precisa ser feita de múltiplos projetos. É essa diversidade de experiências que amplia nossa visão e nos torna profissionais melhores", concluiu.
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