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Ferrari elétrica divide entusiastas, mas reforça estratégia de inovação da marca

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Ferrari elétrica divide entusiastas, mas reforça estratégia de inovação da marca

A chegada da primeira Ferrari 100% elétrica reacendeu um debate clássico da indústria automotiva: até onde uma marca pode inovar sem comprometer o próprio legado? Enquanto parte dos fãs criticou o design e a proposta do modelo, alguns executivos e especialistas defendem que a iniciativa é necessária para preparar a fabricante italiana para possíveis mudanças no mercado.

Entre os nomes que criticaram a marca está Luca di Montezemolo, ex-presidente da Ferrari, que afirmou que o carro elétrico corre o risco de “destruir um mito”, reforçando a preocupação de entusiastas com a perda da identidade construída pela marca ao longo de décadas.

Na contramão das críticas, Erich Shibata, designer e Diretor de Branding e Criação da CIMED, defendeu a estratégia da Ferrari ao destacar que empresas precisam “treinar novas habilidades” para sobreviverem às transformações do mercado. 

Em sua conta no Instagram, ele afirmou que existe uma diferença entre abandonar um legado e testar novas possibilidades. “A Ferrari não matará toda a linha de design e DNA que construiu ao longo do tempo, mas está treinando coisas novas porque, se o mercado mudar, ela estará preparada”, afirmou.


Shibata reconheceu que, sob a ótica de um apaixonado por carros clássicos, o modelo pode causar estranhamento. Ele citou ícones como F40 e F50 ao comentar que a montadora construiu uma das identidades visuais mais admiradas da indústria automotiva. Ainda assim, avaliou que a fabricante acertou ao experimentar novas linguagens sem abandonar completamente sua essência.

Para ele, o movimento lembra decisões consideradas polêmicas no passado, mas que acabaram sendo estratégicas para a sobrevivência das marcas. O principal exemplo citado foi o Porsche Cayenne

Quando a Porsche anunciou o SUV, a reação inicial do público foi negativa, mas o modelo tornou-se um dos principais responsáveis pela expansão financeira da empresa. “Todo mundo caiu em cima da fabricante, dizendo que era um absurdo. Só que essa nova habilidade salvou a marca”, comentou.

Shibata também comparou a Ferrari à Jaguar, sugerindo que a italiana adotou uma transição mais cuidadosa ao testar novas propostas sem romper completamente com sua história.

Como equilibrar tradição e inovação?

A discussão em torno da Ferrari elétrica supera uma questão de design ou motorização. O debate reflete uma preocupação crescente da indústria automotiva de luxo em equilibrar tradição, inovação e adaptação às novas demandas do mercado. Para Patricia Diniz, especialista em Mercado de Luxo e professora da Pós de Mercado de Luxo da ESPM, a Ferrari conseguiu encontrar um equilíbrio raro entre inovação e preservação de marca.

“A Ferrari resolveu um dilema que paralisa muitas marcas tradicionais diante da inovação. Em vez de transformar a marca para acomodar a tecnologia, transformou a tecnologia para que ela coubesse na marca”, contou ao Mundo do Marketing.



A reação negativa de parte dos consumidores já era esperada, segundo Patrícia, justamente pelo nível de conexão emocional que marcas de luxo criam com suas comunidades.

“A reação crítica dos tradicionalistas é parte esperada do processo: marcas de luxo carregam comunidades de consumidores com forte vínculo identitário, e qualquer movimento de expansão é lido como uma ameaça antes de ser lido como uma evolução”, frisou.

Ela avalia que a resistência do público, longe de representar necessariamente um problema, demonstra a força simbólica da Ferrari no imaginário dos consumidores. “O incômodo é sinal de que a marca importa o suficiente para ser defendida. Marcas de luxo precisam dessa tensão para continuar relevantes”, crava.


Para Patricia, o principal desafio daqui para frente será manter a coerência da identidade da Ferrari em um cenário de expansão da categoria elétrica dentro da companhia. “O desafio da Ferrari será sustentar a coerência identitária à medida que a categoria elétrica evolui dentro de casa. Ela precisará preservar o brand equity enquanto abre a marca para uma nova geração de consumidores”, pontua.

Na visão de Shibata, o caminho ideal está justamente na combinação entre preservação do core business e espaço para experimentação. Segundo o executivo, muitas das grandes transformações e oportunidades surgem justamente dessas apostas consideradas secundárias em um primeiro momento. “80% precisa continuar sendo o arroz com feijão bem feito, mas 20% deve ser usado para arriscar e treinar novas habilidades”, concluiu.


Lamborghini e Porsche seguem caminhos diferentes na eletrificação

Enquanto a Ferrari aposta em uma transição gradual para os elétricos, outras fabricantes de luxo também avançam em estratégias próprias para lidar com a mudança do mercado automotivo. A Porsche foi uma das pioneiras entre as marcas esportivas tradicionais ao acelerar sua eletrificação com o Taycan. 

A montadora alemã transformou o modelo em um dos pilares de crescimento da empresa e já trabalha em versões elétricas de linhas como Cayman e Boxster. Mesmo ampliando a presença de veículos elétricos, a marca mantém investimentos em motores a combustão e combustíveis sintéticos, buscando preservar parte da experiência tradicional valorizada pelos fãs.


Já a Lamborghini adotou uma estratégia mais cautelosa. A fabricante italiana vem priorizando modelos híbridos antes de lançar seu primeiro carro totalmente elétrico, previsto para os próximos anos. A marca também reforça publicamente que pretende preservar características históricas, como desempenho extremo e apelo emocional, mesmo na transição energética. Os executivos da empresa já afirmaram que a eletrificação não pode eliminar a “alma” dos superesportivos.

Leia também: Volvo aposta em experiência imersiva para apresentar EX60 em NY

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Priscilla Oliveira

Editora

Jornalista especializada em Marketing e comunicação corporativa. Traduz temas complexos em conteúdos acessíveis e relevantes para profissionais da área.​

AUTOR

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