
O futebol brasileiro vive uma transformação silenciosa, mas significativa, nas arquibancadas. A presença crescente de mulheres, crianças e famílias nos estádios aponta para uma mudança na forma como o público enxerga a experiência de assistir a uma partida ao vivo. Mais do que um ambiente voltado exclusivamente ao torcedor tradicional, as arenas são percebidas como espaços de convivência, entretenimento e lazer, impulsionando novas estratégias para clubes, patrocinadores e operadores.
Houve um crescimento de 32% na presença feminina e de 26% entre menores de 14 anos nos estádios, segundo dados da Bepass. O avanço reflete não apenas melhorias na segurança e no controle de acesso, mas também uma evolução na experiência oferecida ao público, que passa a valorizar fatores como conforto, praticidade, organização e serviços integrados ao longo de toda a jornada do torcedor.
"Quando as mulheres, as crianças e as famílias passam a ocupar mais espaço nas arquibancadas, o estádio deixa de conversar apenas com o torcedor tradicional e passa a dialogar com um público muito mais amplo", afirma Ricardo Cadar, CEO da Bepass, em entrevista ao Mundo do Marketing.
Confira a entrevista na íntegra.

Mundo do Marketing - s. O que esses números significam e ensinam sobre a percepção de segurança dos estádios brasileiros e sobre a mudança do perfil do torcedor?
Ricardo Cadar: Eles apontam uma transformação muito relevante no futebol brasileiro. Quando as mulheres, as crianças e as famílias passam a frequentar mais os estádios, estamos diante de um sinal claro de confiança. O estádio começa a abandonar uma imagem historicamente associada à insegurança, à desorganização e ao conflito, e passa a ser percebido como um ambiente de convivência e lazer. Isso é extremamente positivo não apenas para os clubes, mas para todo o ecossistema do futebol.
A tecnologia tem papel fundamental nesse avanço, uma vez que a biometria facial traz mais controle, reduz fraudes, dificulta a ação de cambistas, melhora a identificação de quem acessa o evento e contribui para afastar pessoas envolvidas em episódios de violência. Para nós, esse dado mostra que o futebol brasileiro está amadurecendo. O estádio está voltando a ser um espaço democrático e familiar. E temos orgulho de participar dessa mudança.
Mundo do Marketing - Ao analisar os dados de acesso dos clubes atendidos, quais foram as principais mudanças de comportamento observadas entre 2023 e 2025 em relação à frequência das famílias nos jogos?
Ricardo Cadar: A principal mudança é a recorrência. Antes, muitas famílias escolhiam ir ao estádio em jogos específicos, geralmente partidas com menor percepção de risco, horários mais confortáveis ou finais de semana. Hoje, vemos um movimento mais consistente de retorno das famílias ao calendário dos clubes. Isso mostra que o estádio está voltando a fazer parte da rotina de lazer do brasileiro. Quando a jornada se torna mais simples, segura e previsível, o torcedor se sente mais à vontade para levar esposa, filhos, amigos e familiares.
Outro ponto importante é que a experiência começa antes do jogo. O cadastro, a compra do ingresso, a comunicação com o torcedor, a chegada ao estádio e o acesso precisam funcionar de forma integrada. Quanto menos fricção existe nessa jornada, maior é a disposição das pessoas de voltar. O que estamos vendo é uma mudança de hábito. O torcedor não quer apenas assistir a uma partida. Ele quer viver uma experiência e quando essa experiência é positiva, ele retorna.

Mundo do Marketing - O aumento da participação de mulheres e crianças pode indicar uma transformação cultural no consumo do futebol ao vivo? Como vocês interpretam esse movimento e quais fatores parecem influenciá-lo além da questão da segurança?
Ricardo Cadar: Sem dúvida, é uma transformação cultural. O futebol ao vivo deixou de ser apenas um evento esportivo de 90 minutos e passou a competir com outros grandes formatos de entretenimento: shows, festivais, cinema, gastronomia e experiências familiares. Hoje, o torcedor quer conforto, organização, serviços eficientes, comunicação clara, acesso rápido, segurança e uma relação mais próxima com o clube. O jogo continua sendo o centro da paixão, mas a experiência em volta dele se tornou fundamental.
As redes sociais também influenciam muito esse movimento. As mulheres, crianças e novos públicos se aproximam dos clubes, dos atletas e das histórias do futebol por meio do digital. Isso cria desejo, conexão e pertencimento antes mesmo da pessoa chegar ao estádio.
Mundo do Marketing - Existem diferenças relevantes entre torcidas, regiões ou tipos de partida quando analisamos a presença de mulheres e famílias? Que padrões os dados revelam?
Ricardo Cadar: Sim, os dados mostram que horários mais acessíveis, especialmente finais de semana e jogos durante o dia, tendem a atrair mais famílias. Também percebemos que estádios com operação mais organizada, melhor sinalização, acesso mais fluido e infraestrutura mais confortável apresentam maior presença feminina e familiar. Mas o ponto mais importante é que a confiança é construída pela soma de fatores. Não basta ter tecnologia, é preciso ter operação, comunicação, orientação ao público, integração com clubes e apoio das autoridades.
Em algumas regiões, onde isso acontece, essa evolução acontece de forma mais acelerada. Iniciativas como a integração com sistemas de monitoramento e programas de segurança reforçam a percepção de que o ambiente está sendo cuidado de forma mais inteligente. Com isso, o torcedor volta quando sente que pode confiar.
Mundo do Marketing - A experiência nos estádios passou por diversas mudanças nos últimos anos. Quais elementos têm maior peso na decisão de uma pessoa voltar ou não a frequentar jogos presencialmente?
Ricardo Cadar: A decisão é definida pela experiência completa. O torcedor avalia tudo: facilidade para comprar o ingresso, clareza nas informações, simplicidade no cadastro, tempo de entrada, organização dos acessos, sensação de segurança, conforto interno, alimentação, limpeza, atendimento e saída do evento. Hoje, o estádio concorre com outras opções de entretenimento. Por isso, a régua subiu.
O torcedor não aceita mais uma jornada confusa, insegura ou cheia de filas. Ele quer praticidade, previsibilidade e respeito ao seu tempo. A biometria facial ajuda justamente nesse ponto: ela torna o acesso mais rápido, mais seguro e mais moderno. No fundo, a tecnologia não substitui a paixão pelo futebol. Ela protege essa paixão e melhora a forma como ela é vivida.

Foto: Givan de Souza/Flamengo
Mundo do Marketing - Com uma base cada vez maior de dados sobre acesso aos estádios, que novas informações os clubes conseguem obter sobre hábitos de consumo e jornada do torcedor dentro dos eventos esportivos?
Ricardo Cadar: Os clubes passam a enxergar o torcedor de forma muito mais inteligente. Antes, muitas decisões eram tomadas com base em percepção. Agora, é possível entender melhor a frequência, horários de chegada, recorrência, perfil de público, distribuição por setores, comportamento por tipo de jogo e padrões de retorno ao longo da temporada. Essas informações ajudam a melhorar a operação, reduzir filas, planejar melhor a comunicação, criar campanhas mais relevantes e entregar experiências mais personalizadas.
Também há um impacto comercial enorme. Os patrocinadores e aas marcas passam a ter mais condições de criar ativações conectadas ao público real que frequenta o estádio. Isso transforma o evento esportivo em uma plataforma viva de relacionamento. É importante destacar que tudo isso precisa ser feito com responsabilidade, segurança e respeito à LGPD. O dado só tem valor quando gera confiança. Para nós, tecnologia, privacidade e experiência precisam caminhar juntas.
Mundo do Marketing - O crescimento de públicos historicamente menos presentes nas arquibancadas pode impactar a forma como clubes, patrocinadores e operadores de estádios pensam suas estratégias. Que oportunidades de negócio surgem a partir dessa mudança demográfica?
Ricardo Cadar: Quando mulheres, crianças e famílias passam a ocupar mais espaço nas arquibancadas, o estádio deixa de conversar apenas com o torcedor tradicional e passa a dialogar com um público muito mais amplo. Isso atrai novas categorias de marcas, novos formatos de patrocínio e novas experiências de consumo. Alimentação, produtos licenciados, varejo, meios de pagamento, programas de fidelidade, benefícios familiares, experiências premium, entretenimento infantil e ativações de marca passam a ganhar muito mais relevância.
Além disso, existe um valor simbólico enorme. Uma criança que vive uma experiência positiva no estádio hoje pode se tornar o sócio torcedor, consumidor e apaixonado pelo clube de amanhã. A família cria memória e memória gera vínculo. Para clubes e patrocinadores, isso significa mais recorrência, mais engajamento, mais consumo e mais valor de longo prazo.

Mundo do Marketing - Olhando para os próximos anos, quais indicadores vocês acreditam que serão mais importantes para medir a evolução da experiência do torcedor e a consolidação dos estádios como ambientes voltados para toda a família?
Ricardo Cadar: Os indicadores mais importantes serão aqueles que medem a qualidade da jornada, não apenas o volume de público. A lotação continuará sendo relevante, claro, mas o futuro dos estádios será medido também por experiência, recorrência e confiança. A presença feminina, participação de crianças, taxa de retorno, tempo médio de acesso, antecedência de chegada, satisfação do torcedor, recorrência por perfil, engajamento pós-evento e consumo dentro do estádio serão métricas cada vez mais estratégicas.
O estádio do futuro será aquele que conseguir unir paixão, segurança, tecnologia e conforto. Não basta colocar muitas pessoas dentro da arena. É preciso fazer com que elas queiram voltar. Na nossa visão esse é o grande caminho. A tecnologia deve estar a serviço da emoção. Ela existe para facilitar o acesso, proteger o torcedor e permitir que o futebol seja vivido da melhor forma possível: com paixão, segurança e pertencimento.
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