
A inteligência artificial dominou os debates do Web Summit Rio 2026, mas não apenas como uma ferramenta de produtividade. Das aplicações corporativas aos investimentos em infraestrutura computacional e aos impactos sobre o jornalismo, o evento mostrou que a tecnologia entrou em uma nova etapa de maturidade. Se até pouco tempo a discussão girava em torno do potencial da IA, agora o foco está nos resultados concretos, no acesso aos recursos necessários para escalar projetos e na confiança em um ambiente digital cada vez mais influenciado por sistemas automatizados.
O momento acompanha uma aceleração global da adoção da tecnologia. Segundo a McKinsey, 78% das organizações já utilizam inteligência artificial em pelo menos uma função de negócio, ante 55% registrados um ano antes. O avanço ajuda a explicar por que a IA atravessou diversas conversas do Web Summit Rio, conectando temas como competitividade empresarial, desenvolvimento tecnológico, qualificação profissional e combate à desinformação.
A transição da experimentação para a geração de valor foi o foco do painel "O próximo passo: da expectativa aos resultados", que reuniu Milena Leal, country manager do Google Cloud Brasil, e Graciela Kumruian, CEO da Netshoes, com mediação de Luciana Magalhāes, da Reuters. A conversa mostrou que as empresas mais avançadas já não discutem se devem usar inteligência artificial, mas como ampliar sua adoção de forma eficiente e segura.

Milena destacou que a tecnologia já está sendo aplicada para otimizar jornadas de clientes, criar agentes corporativos, analisar indicadores de negócio e aumentar a produtividade das equipes. Para a executiva, o papel da IA é ampliar a capacidade humana de tomada de decisão. "É muito importante que as empresas se cerquem de uma governança corporativa, mas ao mesmo tempo sem engessar. O processo não pode ser engessado. Além disso, a proteção do dado é algo irrenunciável ”, afirmou a Country manager do Google Cloud Brasil.
Governança, custo e capacitação entram no centro da estratégia
Se os ganhos de produtividade e personalização já são evidentes, os desafios de implementação passaram a ocupar um grande espaço nas discussões. Na Netshoes, a inteligência artificial já opera em diferentes frentes. A empresa utiliza modelos generativos para apoiar times de tecnologia, acelerar processos e personalizar a experiência de compra. Segundo Graciela, a personalização acontece em tempo real, acompanhando o comportamento dos consumidores ao longo da jornada. "A IA não é mais um ruído. Veio para ficar e quem souber usar, terá vantagem competitiva. Sabendo usar a IA, ela traz muita qualidade, assertividade, além obviamente da escala e eficiência", afirmou a CEO da Netshoes.
A executiva destacou que a tecnologia permite criar experiências individualizadas em escala, aumentando relevância e eficiência sem abrir mão da privacidade dos usuários. Se os benefícios já são evidentes, os desafios de implementação passaram a ocupar espaço central nas discussões. A governança de dados, rastreabilidade, arquitetura tecnológica e qualificação profissional apareceram como fatores determinantes para o sucesso dos projetos.

Milena alertou que a adoção acelerada da IA sem planejamento adequado pode gerar impactos financeiros relevantes, especialmente em operações de larga escala. Para ela, muitas organizações passaram a consumir modelos de IA sem avaliar corretamente a arquitetura necessária para sustentar esse crescimento.
A executiva também abordou uma das principais preocupações do mercado: os efeitos da inteligência artificial sobre o emprego. O risco não está necessariamente na substituição de profissionais pela tecnologia, mas na falta de preparo para trabalhar ao lado dela.
"Será mandado embora ou o emprego deixará de existir por causa da AI? Não. Mas se você não souber lidar com a AI, provavelmente você será dispensado", analisou.
Como resposta a esse desafio, o Google Cloud anunciou durante o evento a ampliação do programa Capacita Mais, iniciativa gratuita que pretende formar mais três milhões de brasileiros em inteligência artificial. Graciela reforçou que a transformação vai além da tecnologia e exige mudança cultural dentro das organizações. "A IA não é uma tecnologia do time de TI ou de labs, é da empresa inteira", frisou.

Claro e NVIDIA apostam na democratização da infraestrutura de IA
Se Google Cloud e Netshoes discutiram o uso corporativo da inteligência artificial, Claro e NVIDIA levaram ao palco uma camada menos visível, mas fundamental para o desenvolvimento do setor: a infraestrutura computacional. Durante o painel "Capacite os construtores de amanhã com a plataforma de IA", as empresas apresentaram uma iniciativa que busca ampliar o acesso ao poder computacional necessário para treinar e operar modelos avançados de inteligência artificial.
A Claro anunciou sua credenciação junto à NVIDIA para operar e comercializar infraestrutura especializada em IA na América Latina, permitindo que empresas, startups e pesquisadores tenham acesso a recursos antes concentrados nas grandes companhias globais de tecnologia. A discussão complementou o painel anterior ao abordar uma pergunta fundamental para o avanço da IA: como garantir acesso à infraestrutura necessária para sustentar o crescimento dessas aplicações.
Ao longo da conversa, os executivos defenderam que ampliar o acesso à computação avançada pode impulsionar inovação em diferentes regiões do país e reduzir barreiras para o desenvolvimento de novos negócios.
Rodrigo Duclos, chief innovation & digital officer da Claro, afirmou que o objetivo não é apenas permitir o uso das ferramentas disponíveis hoje, mas estimular a criação de soluções próprias. "Não é só usar as ferramentas, não é só usar os modelos, é melhorar os modelos, é achar novos problemas para resolver esses problemas de forma diferente, criar uma diferenciação", explicou.
Para Rodrigo, a combinação entre infraestrutura, conectividade e criatividade pode criar condições para que empresas brasileiras participem de forma mais ativa da próxima onda de inovação baseada em IA.
Já Marcio Aguiar, diretor executivo da NVIDIA para a América Latina, destacou que a iniciativa não busca competir com os grandes provedores globais, mas ampliar o acesso à tecnologia. "Eles não estão mudando a maneira que eles vão ao mercado, estão simplesmente agregando mais valor ao que eles já oferecem", analisou.
A visão apresentada pelas empresas reforça uma tendência observada ao longo do evento: a corrida pela inteligência artificial não depende apenas dos modelos, mas também da capacidade de democratizar a infraestrutura necessária para utilizá-los.
“Não é fácil para nenhuma empresa inovar. Eu imagino muitos de vocês aqui se perguntando como eu consigo inovar, como eu consigo ter retorno no investimento. Se for olhar o modelo de negócios, a oferta de poder computacional como serviço é algo novo. O melhor de tudo isso é que não estão entrando para competir com outras grandes empresas, mas para criar um acesso muito mais ágil e muito mais fácil para os clientes”, contou o executivo da NVIDIA.

Em um mundo movido por IA, a quem pertence a verdade?
Se os painéis anteriores mostraram como a inteligência artificial está transformando empresas e ampliando o acesso à inovação, a conversa entre Julie Pace, Editora-executiva da Associated Press, e Ayesha Chowdhury, Senior Manager de estratégia digital e parcerias do BBC World Service, levou o debate para uma dimensão mais ampla: os impactos da tecnologia sobre a informação e a confiança pública.
O painel "A quem pertence a verdade?" discutiu os efeitos da proliferação de conteúdos sintéticos, o papel das plataformas digitais e a responsabilidade de empresas de tecnologia e organizações jornalísticas na construção de um ecossistema informacional mais confiável.
Ayesha resumiu o dilema que atravessa a indústria da informação. "Quem é responsável por isso? São os que o reportam? São as plataformas que o distribuem? Ou os sistemas que controlam isso e reestruturam isso?", questionou.
Julie Pace defendeu que o jornalismo profissional continua sendo a base do ecossistema de informação, mesmo em um cenário cada vez mais intermediado por ferramentas de inteligência artificial. "Nada do que você vê em qualquer plataforma de AI que você trabalha existe sem conteúdo e informação para alimentá-la", pontuou.
A executiva argumentou que as organizações de mídia precisam participar ativamente das negociações com plataformas de IA, garantindo remuneração pelo uso de conteúdo jornalístico e preservando a integridade das informações distribuídas. Também alertou para o avanço da desinformação e para a dificuldade crescente do público em identificar a origem e a credibilidade dos conteúdos que consome.
Entre diferentes visões, uma mensagem parece ter atravessado os debates do Web Summit Rio: a tecnologia continuará avançando, mas a forma como empresas e pessoas se preparam para ela será decisiva. “Todo mundo tem medo do novo. Quem não tem medo do novo? Eu também tenho medo, mas levar o conhecimento é fundamental. As funções mudarão com a inteligência artificial. Então a capacitação é muito importante", aconselhou Milena Leal, do Google Cloud Brasil.
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