
Construir uma carreira internacional costuma ser visto como consequência de boas oportunidades. Para Bruna Piovesan, no entanto, foi resultado de um planejamento de longo prazo. Depois de cerca de dez anos atuando no mercado publicitário brasileiro, ela decidiu que queria trabalhar com marcas globais. Em vez de esperar um convite, desenhou uma estratégia que envolveu mudar para os Estados Unidos, investir em formação internacional, construir networking local e disputar espaço em um dos mercados mais competitivos do mundo. Hoje, doze anos depois, lidera globalmente o Marketing B2B da Uber Advertising, uma das operações que mais crescem dentro da companhia.
A trajetória passa por diferentes etapas: uma primeira experiência em uma consultoria especializada em life sciences, oito anos e meio no Twitter — onde acompanhou desde a expansão da plataforma até a transição para o X — e, mais recentemente, a chegada à Uber, em um momento de forte evolução da operação de mídia da empresa. O desafio atual envolve ajudar a construir um negócio que ganha relevância dentro do ecossistema global da companhia, a área de Advertising.
"Eu sempre tive essa vontade de trabalhar fora. Sempre me interessou trabalhar com marcas globais e campanhas globais. Então comecei a pensar em como faria essa transição. Não era tão simples quanto mandar um currículo do Brasil e esperar ser contratada. Foi quando pensei em fazer um máster em International Marketing em São Francisco como uma forma de morar aqui, construir networking e conseguir um emprego como consequência disso. Foi exatamente o que aconteceu", contou Bruna Piovesan, em entrevista ao Mundo do Marketing.

Hoje, a Uber Advertising se tornou uma das apostas estratégicas da companhia. A operação superou US$ 2 bilhões em receita anualizada em 2025, registrando crescimento superior a 50% em relação ao ano anterior. No Brasil, a empresa também acelera a presença no mercado de mídia, ampliando soluções para anunciantes e fortalecendo o posicionamento da plataforma como um ambiente de commerce media.
Para Bruna, a oportunidade de ingressar na Uber surgiu justamente porque a empresa vivia um momento diferente daquele encontrado em sua experiência anterior. Se no X o cenário era de reorganização após profundas mudanças estruturais, na Uber havia espaço para criar processos, desenvolver equipes e impulsionar um negócio ainda em expansão. Essa possibilidade pesou na decisão de mudar de empresa.
"O que veio muito forte para mim foi querer construir. Construir um time e ajudar um negócio a crescer. Quando me deparei com essa oportunidade na Uber, achei que estava completamente alinhada ao que eu buscava. É uma combinação entre entender muito bem o que eu queria para o próximo passo da minha carreira e encontrar uma oportunidade que fazia sentido para isso", pontua Bruna.

Liderança construída em meio às mudanças
Ao longo da carreira, Bruna ocupou diferentes posições dentro do Twitter antes de assumir funções globais. Ela foi uma das primeiras integrantes da equipe mundial dedicada ao Marketing B2B para Advertising e acompanhou a expansão internacional da área. Durante a reestruturação da companhia, assumiu responsabilidades adicionais e passou a liderar iniciativas para diferentes regiões, incluindo as Américas.
Essa experiência, segundo a executiva, moldou parte do estilo de liderança que leva hoje para a Uber. Mais do que conhecimento técnico, ela acredita que a capacidade de manter estabilidade em ambientes de alta pressão e adaptação constante se tornou um diferencial competitivo para quem ocupa posições estratégicas.
"O feedback que mais recebo é que sou uma pessoa muito calma, muito inabalável. Acho que isso faz diferença principalmente quando preciso liderar equipes em momentos de muitas mudanças, objetivos ambiciosos e bastante pressão. Essa característica acaba trazendo estabilidade e confiança para o time. Ao mesmo tempo, adaptabilidade é uma das competências mais importantes da liderança hoje. O que funcionou ontem pode não funcionar amanhã", contou.
Muito além do retail media
Embora o mercado costume posicionar a Uber dentro das discussões sobre retail media, Bruna prefere uma definição mais ampla: commerce media. Na visão da executiva, o diferencial competitivo da companhia está justamente na combinação entre mobilidade, delivery, supermercado, conveniência e presença no cotidiano de milhões de consumidores.
Essa integração gera uma quantidade de sinais comportamentais que permite às marcas desenvolver estratégias de comunicação em momentos de alta intenção de consumo. "Nós consideramos a Uber Advertising como commerce media. Temos mobilidade, delivery de comida, supermercado e outras categorias. Isso torna nossa proposta de valor muito mais ampla. Conseguimos estar presentes nos momentos em que as pessoas estão tomando decisões importantes no dia a dia, tanto dentro do aplicativo quanto em experiências no mundo físico”, explica.
Essa visão também influencia a forma como a empresa estrutura suas soluções para anunciantes. Bruna conta que a plataforma evolui rapidamente tanto em novos formatos quanto em capacidade de mensuração, oferecendo oportunidades que vão desde pequenos comerciantes presentes no Uber Eats até grandes marcas interessadas em campanhas de alcance nacional ou global.
Ao mesmo tempo, liderar uma operação global significa encontrar equilíbrio entre consistência e flexibilidade. A executiva afirma que estratégias internacionais só funcionam quando respeitam as particularidades de cada mercado e mantêm um fluxo constante de aprendizado entre as regiões.
"Sempre penso muito em como equilibrar uma estratégia global com as nuances locais. Existe uma parte que precisa ser comum para todos os mercados, mas também precisamos respeitar aquilo que faz sentido para cada região. E isso funciona nos dois sentidos. Muitas vezes, uma ideia que nasce em um mercado local pode ser escalada para o restante do mundo", analisa a executiva.
Inteligência Artificial muda a forma de trabalhar
Morando há mais de uma década em São Francisco, Bruna acompanha de perto o desenvolvimento das principais tecnologias que vêm transformando o Marketing. Para ela, a Inteligência Artificial já deixou de ser apenas uma ferramenta individual de produtividade para assumir um papel estrutural na organização das equipes.
O próximo passo está em redesenhar fluxos de trabalho inteiros, incorporando IA aos processos coletivos e ampliando ganhos de eficiência em escala. Ela também utiliza a tecnologia em projetos pessoais e atividades criativas.
"Definitivamente houve um ganho muito grande de produtividade. Agora tenho pensado menos no uso individual e mais em como estruturar workflows para que equipes inteiras trabalhem melhor utilizando Inteligência Artificial. Também tenho usado bastante em projetos pessoais e criativos", afirmou Piovesan.
O conselho para quem sonha em trabalhar fora
Apesar de estar distante do mercado brasileiro há doze anos, Bruna continua enxergando características que diferenciam os profissionais do país. Na avaliação dela, criatividade, curiosidade e iniciativa continuam sendo atributos valorizados internacionalmente e podem fazer diferença para quem pretende construir uma carreira global.
Mais do que dominar ferramentas ou acompanhar tendências, ela acredita que o profissional de Marketing precisará atuar cada vez mais próximo das decisões de negócio. Em um cenário impulsionado por dados, tecnologia e Inteligência Artificial, a disciplina deixa de ser apenas responsável por campanhas e posicionamento para assumir um papel central na geração de crescimento das empresas.
"Eu vejo o Marketing deixando de ser apenas campanhas e posicionamento de marca. Está se tornando um verdadeiro motor de crescimento da empresa, extremamente conectado ao negócio, aos dados, aos insights do consumidor e ao produto. É um Marketing muito mais always on, que gera valor continuamente para qualquer companhia", concluiu.
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