
Durante décadas, Pedro Bandeira construiu uma das trajetórias mais relevantes da literatura infantojuvenil brasileira. Com 130 obras publicadas e 32 milhões de exemplares vendidos, o autor consolidou um repertório que atravessa gerações e segue presente no imaginário de leitores, escolas e famílias. Agora, esse patrimônio entra em uma nova fase. A PBE2, sigla para Pedro Bandeira Educação e Entretenimento, foi criada para gerir com exclusividade as propriedades intelectuais do escritor e expandir esse legado além do mercado editorial, em uma estratégia que chama atenção.
A proposta da empresa é reposicionar a obra de Pedro Bandeira como um ecossistema de marca. Em vez de tratar os livros apenas como produtos editoriais, a PBE2 trabalha a propriedade intelectual do autor como uma plataforma capaz de se desdobrar em educação, audiovisual, licenciamento e novas experiências de relacionamento com o público.
O que está em jogo é uma discussão cada vez mais relevante para o Marketing: como transformar um legado cultural em uma estrutura de crescimento sem diluir identidade, relevância e coerência ao longo do caminho?
“A força da marca Pedro Bandeira foi construída pela consistência de um propósito: contar histórias que respeitam a inteligência do jovem leitor e dialogam com seus dilemas. Ao longo do tempo, essa consistência criou confiança e identificação emocional. Hoje, entendemos que essa marca não representa apenas um autor, mas um universo narrativo capaz de conectar diferentes gerações. Preservar a identidade significa evoluir a linguagem e os formatos sem perder a essência”, contou Rodrigo Bandeira de Luna, sócio e diretor da PBE2, ao Mundo do Marketing.

De catálogo editorial a plataforma de marca
A força da marca Pedro Bandeira foi construída ao longo do tempo por um elemento que continua central para qualquer estratégia de branding: consistência. O nome do autor se consolidou por décadas de conexão com o público jovem. Esse ponto ajuda a entender por que a estratégia da PBE2 vai além da gestão de direitos autorais.
A empresa parte do princípio de que a relevância de uma marca cultural não se sustenta apenas por histórico, nostalgia ou volume de vendas. Para continuar competitiva, ela precisa converter reconhecimento em presença contemporânea, criando novos pontos de contato sem romper com os atributos que sustentaram sua reputação.
“Longevidade nasce da combinação entre relevância cultural e capacidade de reinvenção. A marca Pedro Bandeira possui valores permanentes, como curiosidade, criatividade, pensamento crítico e o estímulo à leitura, que permanecem atuais. Nossa estratégia é transformar essa herança em um ecossistema de conteúdo, educação e entretenimento, permitindo que a propriedade intelectual continue gerando impacto e valor”, contou Rodrigo.

Branding como expansão de universo, não apenas de portfólio
A estratégia da PBE2 se ancora em uma visão de marca que deixa de olhar apenas para produtos e passa a priorizar a construção de um universo. Em vez de depender exclusivamente do desempenho de obras individuais, a empresa busca criar um sistema contínuo de relacionamento com o público, com novas frentes de receita, distribuição e experiência.
“Uma propriedade intelectual forte não vive apenas de um catálogo de obras. Ela cria um universo em expansão. Isso significa desenvolver experiências, conteúdos digitais, projetos educacionais, adaptações audiovisuais e novas formas de engajamento. O relacionamento deixa de acontecer apenas no momento da leitura e passa a ser contínuo ao longo da vida do público”, explicou.
Essa mudança de chave é importante porque traduz uma lógica cada vez mais presente no Marketing contemporâneo. Marcas longevas não crescem apenas ampliando portfólio. Elas avançam quando conseguem transformar seus ativos simbólicos em sistemas de significado, relacionamento e recorrência. “A obra continua sendo o ponto de partida desse ecossistema, mas o potencial se estende ao audiovisual, à educação, ao digital e a novas experiências culturais. Queremos construir um universo vivo, não apenas preservar um legado”, afirmou Rodrigo Bandeira.

O desafio de falar com novas gerações sem romper com a base original
Uma das frentes mais delicadas desse processo está na atualização da marca para novos hábitos de consumo cultural. Em um ambiente marcado por novas plataformas, linguagens e dinâmicas de atenção, a expansão da propriedade intelectual precisa equilibrar renovação e familiaridade. Para a PBE2, esse movimento não passa por “modernizar” personagens de forma superficial, mas por ampliar as possibilidades de interação com o universo criado por Pedro Bandeira.
“O maior aprendizado é que novas gerações mudam de plataforma, mas continuam buscando boas histórias. Não se trata de modernizar personagens e sim de ampliar as formas de interação com esse universo. O branding contemporâneo é participativo, multiplataforma e orientado por comunidade. O desafio é fazer com que novos públicos entrem nesse universo enquanto os leitores históricos continuem se reconhecendo nele”, frisou o executivo.
A construção desse ecossistema também passa por uma leitura mais ampla sobre o papel da propriedade intelectual na estratégia empresarial. Na visão da PBE2, a IP (Intellectual Property) não deve ser tratada apenas como um instrumento jurídico ou um patrimônio cultural a ser protegido. Ela precisa ser compreendida como uma infraestrutura de valor, capaz de sustentar crescimento, atrair parceiros e abrir novas avenidas de monetização.

“É necessário abandonar a visão de que propriedade intelectual é apenas um instrumento jurídico. Ela deve ser compreendida como uma infraestrutura de valor, capaz de gerar fluxos recorrentes de receita, atrair investimentos e sustentar estratégias de longo prazo. O mercado precisa enxergar IP como uma classe de ativos”, defendeu.
Se a expansão abre oportunidades, ela também impõe um risco conhecido de qualquer operação de branding: a diluição. Uma marca pode ganhar escala e, ao mesmo tempo, perder força simbólica se passar a ocupar territórios desconectados de sua essência. Por isso, a PBE2 afirma que a escolha de formatos, parceiros e extensões é guiada menos por volume e mais por coerência narrativa.
“Toda extensão precisa fortalecer o universo da marca. Não buscamos licenciar produtos simplesmente para ampliar receita, mas construir experiências coerentes com os valores da propriedade intelectual. A pergunta estratégica sempre é: essa iniciativa amplia a narrativa e fortalece a relação emocional com o público? Se a resposta for positiva, ela contribui para o crescimento sustentável da marca.”
Do livro ao audiovisual: a ampliação dos pontos de contato
Essa visão ganha materialidade em projetos que já começam a reposicionar o universo de Pedro Bandeira para outros territórios. O principal deles é a adaptação de “Os Karas em A Droga da Obediência” para o cinema, prevista para 2027 em parceria com Conspiração Filmes, Scriptonita e Globo Filmes. O projeto funciona como um marco dessa nova fase ao deslocar uma obra emblemática do autor para um formato com maior potencial de alcance, visibilidade e renovação de público.
Mais do que adaptar um título conhecido, a iniciativa reforça a ideia de que a marca pode viver em diferentes suportes, desde que preserve seus valores centrais.
“Quando deixa de depender exclusivamente do sucesso de um produto e passa a sustentar múltiplas narrativas e experiências. Nesse momento, ela se transforma em uma plataforma de criação contínua de valor, com potencial para educação, audiovisual, licenciamento, tecnologia e novos modelos de negócio”, pontuou.

Quando a marca deixa de ser produto e passa a ser ecossistema
Embora o caso tenha origem no universo literário, as lições extrapolam o setor editorial. A PBE2 mostra que marcas com trajetória longa e repertório reconhecido podem ganhar uma nova camada de valor quando passam a estruturar seus ativos de forma integrada, com visão de longo prazo e governança sobre seus desdobramentos. Em vez de tratar o passado apenas como legado, a empresa o transforma em matéria-prima para novos negócios.
Esse raciocínio vale para companhias de entretenimento, educação, varejo, creator economy e consumo, mas também para marcas tradicionais que buscam prolongar sua relevância em um cenário de fragmentação de atenção. O ponto central está menos no formato do ativo e mais na lógica de gestão: identificar o que a marca tem de mais valioso, traduzir esse patrimônio em experiências contemporâneas e criar um sistema de expansão que preserve identidade enquanto amplia alcance, receita e conexão cultural.
“Os três aspectos precisam evoluir, mas a mudança cultural é decisiva. Enquanto a propriedade intelectual for vista apenas como patrimônio artístico, seu potencial econômico permanecerá limitado. É necessário desenvolver uma cultura de gestão estratégica que integre criatividade, negócios e investimento”, concluiu Rodrigo Bandeira.
Leia também: Urgência por educação corporativa cresce sob a pressão da IA e escassez de talentos
COMPARTILHAR ESSE POST






