
O avanço dos medicamentos à base de GLP-1 produz impactos que extrapolam o setor farmacêutico e começam a modificar o comportamento de consumo dos brasileiros. A utilização desses medicamentos cresceu 239% no primeiro trimestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior, apontam dados de um levantamento da Scanntech.
Cerca de 6% dos brasileiros adultos já utilizam medicamentos à base de GLP-1 e estima-se que o mercado informal responda por mais da metade das doses consumidas no país. O estudo identificou um crescimento nas vendas do material de aplicação injetável acima do que seria esperado apenas pela evolução da demanda por insulina. Esse excedente foi utilizado como indicador indireto do uso de medicamentos à base de GLP-1 adquiridos em ampolas e comercializados fora dos canais formais.
Esses consumidores apresentam um perfil de consumo diferente da média da população. Em comparação com pessoas que nunca utilizaram GLP-1, os usuários atuais consomem entre quatro e cinco vezes mais cerveja, bebidas destiladas, serviços de delivery, restaurantes e redes de fast food. Além disso, gastam de duas a três vezes mais com academias, suplementos alimentares e vitaminas.

Impactos notáveis no mercado
O avanço do consumo produz efeitos em segmentos que, até pouco tempo atrás, pareciam distantes do mercado farmacêutico. Descontados os fatores macroeconômicos e sazonais capazes de influenciar o consumo, como renda, emprego, endividamento das famílias e condições climáticas, a empresa estima que a expansão do uso de GLP-1 reduz em 0,49% ao ano o volume de alimentos vendidos pelos supermercados brasileiros.
As perdas se concentram principalmente em categorias tradicionalmente associadas ao consumo por impulso. O segmento de bebidas lidera o declínio, com retração anual estimada em 0,91%. Também aparecem entre os mais afetados os perecíveis embalados (-0,66%), a mercearia (-0,53%) e a mercearia básica (-0,43%).
No recorte de categorias, a cerveja registra a maior retração estimada, de 1,03% ao ano. Em seguida aparecem petiscos e snacks (-0,82%), chocolates (-0,72%), biscoitos (-0,63%), goma de mascar (-0,55%), refrigerantes (-0,55%) e balas e pirulitos (-0,51%). A mudança não decorre apenas da redução do apetite provocada pelos medicamentos, mas também do perfil dos consumidores que aderem ao tratamento.

Quem são os usuários de GLP-1
Em comparação com quem nunca utilizou GLP-1, os usuários consomem entre quatro e cinco vezes mais cerveja, bebidas destiladas, refeições por delivery, restaurantes e redes de fast food. Também gastam entre duas e três vezes mais com academias, vitaminas e suplementos alimentares.
Esse perfil ajuda a explicar por que a retração nas vendas dos supermercados ocorre justamente em categorias ligadas ao consumo por prazer: a redução acontece entre consumidores historicamente mais intensivos, potencializando o efeito observado no varejo.
Embora o combate à obesidade seja a principal motivação para o uso, citada por 29,5% dos entrevistados, a perda rápida de peso aparece praticamente no mesmo patamar, com 28,6%. Na sequência surgem a manutenção do peso (24,1%) e o controle do apetite (23,8%), ambos à frente de objetivos relacionados à prevenção de doenças, como a redução do risco cardiovascular (22,8%) e o tratamento do diabetes tipo 2 (16,7%).

A maior concentração de usuários está entre mulheres de 25 a 34 anos, com renda mensal entre R$ 22 mil e R$ 32 mil. Já os brasileiros com mais de 50 anos registram o menor índice de utilização desses medicamentos e, ao mesmo tempo, apresentam maior consumo de alimentos frescos na rotina alimentar.
Outro aspecto observado pela pesquisa é o curto período de permanência no tratamento. Entre os usuários atuais, 66,5% utilizam GLP-1 há cinco meses ou menos. Além disso, 63,7% afirmam ter baixa ou muito baixa intenção de continuar utilizando os medicamentos, indicando elevada rotatividade entre os consumidores.
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