
A difusão das chamadas canetas emagrecedoras (GLP-1) ultrapassou o ambiente clínico e ganhou tração nas redes sociais, não necessariamente de modo positivo, O assunto sustenta uma combinação de interesse e preocupação, uma vez que 82% das pessoas defendem a venda restrita a farmácias credenciadas, mediante prescrição e acompanhamento profissional, segundo um estudo da Hibou.
Os dados sinalizam uma nova relação do consumidor com o autocuidado, especialmente entre perfis mais jovens e engajados com a própria saúde. Em 2025, o varejo farmacêutico registrou um faturamento de R$ 246,1 bilhões, com crescimento de 11,3%, conforme dados da IQVIA. A categoria de GLP-1 se destacou com alta de 83,2% e receita de R$ 11,5 bilhões, o equivalente a 4,7% do total do setor.
Como o uso das terapias com GLP-1 exige acompanhamento nutricional e cuidados complementares, o setor também impulsiona outras categorias dentro das farmácias. Entre os destaques estão o aumento na demanda por multivitamínicos e minerais — como magnésio e complexos vitamínicos —, além de produtos de nutrição clínica, como whey protein e barras proteicas, que conectam o varejo farmacêutico ao universo fitness.

Por outro lado, 52% dos entrevistados afirmam conhecer alguém que utilizou o medicamento sem supervisão médica e 9% admitem uso por conta própria, indicando o avanço da automedicação. A influência digital aparece como vetor relevante na popularização do recurso. Para 56% dos entrevistados, conteúdos com “antes e depois” impactam fortemente a decisão de uso, e outros 23% reconhecem a influência moderada.
Em paralelo, 71% avaliam que há busca por resultados sem compreensão do contexto clínico e apenas 4% consideram existir informação confiável suficiente. O receio persiste mesmo com a prescrição: 66% afirmam que notícias sobre efeitos colaterais influenciariam a decisão. Para Ligia Mello, CSO do Instituto Hibou, o brasileiro está reagindo a um excesso de estímulo: quando a estética vira algoritmo, a saúde vira preocupação coletiva.
Impacto no consumo
A disseminação dos medicamentos da classe GLP-1 provoca efeitos mensuráveis no consumo. Uma análise da Kantar identificou mudanças nos padrões alimentares e de compra, com aumento na preparação de refeições em casa e redução no consumo em restaurantes entre os usuários desses fármacos. Com isso, cria-se oportunidades para as marcas e as varejistas que ampliam a oferta de produtos frescos, refeições prontas e soluções voltadas a porções equilibradas e maior densidade nutricional.
Por outro lado, o grupo de usuários ainda representa uma parcela reduzida da população, o que exige estratégias capazes de dialogar tanto com esse nicho em expansão quanto com o público mais amplo interessado em alimentação saudável. Há espaço para endereçar demandas objetivas por inovação. Entre os alimentos, destacam-se sobremesas ricas em proteína e com baixo teor calórico (28%), produtos de panificação com menos açúcar e mais proteína (28%) e bebidas hidratantes com eletrólitos e colágeno (24%).

A demanda por soluções se estende além da alimentação. Os usuários dos GLPs tendem a buscar maior apoio do varejo na identificação de opções saudáveis, além de avaliar com mais rigor a composição dos produtos. Os aplicativos de planejamento de refeições personalizados lideram o interesse (33%), seguidos por utensílios inteligentes com controle de porções (24%), serviços de personalização nutricional e de macronutrientes (24%).
A vantagem competitiva tende a se concentrar em marcas capazes de traduzir essas demandas em portfólios claros, com curadoria mais eficiente, melhor sinalização no ponto de venda, integração omnichannel e serviços de suporte. O desafio passa por equilibrar a resposta a um segmento em crescimento com propostas que também façam sentido para o consumidor geral, mantendo transparência e consistência na comunicação.
Marcas criam oportunidades
Novata no mercado, a Novalgina Flash promete entregar uma resposta mais potente e ágil à dor de cabeça, fruto de uma fórmula construída para endereçar dores literais dos consumidores de GLP-1. Isso porque a cefaleia aparece entre os principais efeitos adversos causados pelos fármacos. A progressão deste mercado deve engrossar um cenário de interrupções significativas. No Brasil, dores como a enxaqueca geram perdas de cerca de R$ 67 bilhões por ano devido à queda de produtividade e afastamentos do trabalho.
Além disso, o uso de análogos de GLP-1, como semaglutida e liraglutida, tem como efeito direto a redução do apetite e o aumento da saciedade, o que leva à perda de peso. Esse processo pode gerar um efeito colateral relevante: sem ajuste nutricional adequado, parte da perda não ocorre apenas em gordura, mas também em massa muscular. Ao mesmo tempo, alterações no funcionamento intestinal, como constipação, tendem a surgir sobretudo no início do tratamento.
De olho neste cenário, a Verde Campo, empresa que passou por um processo de rebranding recente, estruturou a proposta de portfólio para posicionar produtos com maior densidade proteica e adição de fibras como soluções práticas para consumidores que enfrentam redução de apetite e dificuldades em atingir metas nutricionais diárias.

A formulação que combina diferentes tipos de proteína, associada ao reforço de fibras e micronutrientes, responde diretamente aos efeitos fisiológicos induzidos pelos medicamentos: busca compensar a perda muscular e, simultaneamente, atenuar impactos no funcionamento intestinal.
As marcas mostram que há espaço para escalar produtos saudáveis acessíveis, enquanto se desenvolvem linhas premium focadas em nutrição essencial e porções inteligentes para o consumidor GLP-1. Mais que um mergulho em uma onda passageira, essa estratégia deverá ser determinante para que marcas sejam consideradas em um panorama de consumo crescente e, ao que tudo indica, chegou para ficar.
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