
O mercado de cuidados com as roupas está vivendo uma mudança importante que envolve Inteligência Artificial (IA), biotecnologia e tecnologias de casas conectadas – e como elas determinam como os produtos são formulados, produzidos e utilizados. Mais do que desenvolver detergentes com novas fragrâncias, embalagens ou atributos de performance, a indústria começa a se aproximar de um cenário de grandes inovações.
A avaliação é da Mintel, que publicou um exercício de planejamento de cenários baseado em sinais de inovação e registros de patentes. Segundo a consultoria, essas tecnologias podem deslocar a categoria de uma lógica de renovação incremental de produtos para uma fase de reinvenção, na qual sustentabilidade, eficácia, custo e bem-estar deixam de ser necessariamente atributos concorrentes.
Tudo isso acontece em um momento de pressão sobre o modelo tradicional do setor. As cadeias de fornecimento dependentes de petroquímicos estão expostas a oscilações de preços e instabilidades geopolíticas, enquanto consumidores demandam produtos mais sustentáveis e eficientes, mas demonstram maior sensibilidade a preço. Ao mesmo tempo, o conceito de cuidado com as roupas começa a incorporar questões associadas ao bem-estar, como conforto da pele, redução de alergênicos e até aromaterapia.

IA pode transformar a formulação em uma corrida por eficiência
Três caminhos tecnológicos merecem atenção: IA aplicada à formulação, produção de ingredientes por meio da biotecnologia e personalização viabilizada pela integração com casas inteligentes. No primeiro cenário, a IA passa a funcionar como uma espécie de novo motor de eficiência para a indústria.
Sistemas capazes de simular combinações de ingredientes podem acelerar o desenvolvimento de fórmulas e, simultaneamente, buscar melhores resultados em performance, custo, consumo de água e energia e sustentabilidade. Com isso, o laboratório deixa de concentrar grande parte do trabalho em experimentações amplas e passa a atuar mais fortemente na validação e no refinamento das alternativas encontradas pela tecnologia.
Os sinais já aparecem no mercado e o número de patentes relacionadas a detergentes sustentáveis já passou de 616, em 2016, para 2.007, em 2025. No mesmo período, os registros que combinam sustentabilidade e eficiência de custos também avançaram, de 257 para 682. A evolução pode ajudar a resolver antigos dilemas da categoria. Produtos capazes de funcionar em temperaturas muito baixas, por exemplo, podem combinar limpeza eficiente com menor consumo de energia.

A própria análise cita uma patente da P&G envolvendo uma proteína derivada de Bacillus subtilisin, desenvolvida para permanecer estável em água a temperaturas de até 5°C. Outro exemplo vem do China Daily Chemical Research Institute, que desenvolveu um detergente superconcentrado, de baixo ponto de congelamento, formulado com materiais de origem vegetal e capaz de permanecer funcional a -10°C.
O avanço, porém, cria um paradoxo para as marcas: quanto mais acessível se torna a tecnologia de formulação, mais difícil pode ser justificar uma diferença de preço apenas pela performance. A Mintel aponta o risco de comoditização e avalia que a diferenciação poderá depender cada vez mais de dados proprietários, conjuntos de treinamento exclusivos, acesso privilegiado a ingredientes e integração entre formulação, compras e manufatura.
Biotecnologia pode deslocar a disputa para os ingredientes
O segundo cenário coloca a biotecnologia no centro da competição. Em vez de concentrar a inovação apenas na fórmula final, as empresas podem disputar o controle das tecnologias utilizadas para produzir os próprios ingredientes. Biologia sintética e fermentação já permitem desenvolver enzimas, biossurfactantes e agentes de limpeza microbianos com características específicas para diferentes condições, como água fria, água dura, suavidade ou menor impacto ambiental.
Os registros de patentes relacionados à biologia sintética em detergentes para roupas passaram de 455, em 2016, para 937, em 2024, permanecendo em patamar elevado em 2025 e 2026. Entre os focos estão enzimas desenvolvidas por engenharia, aumento da eficiência da fermentação, desenho de biorreatores e surfactantes de origem biológica.
Os biossurfactantes são um exemplo desse movimento. A Mintel cita uma solução da Locus Solutions baseada em substâncias como os soforolipídeos, produzidas por microrganismos e capazes de ajudar no tratamento de problemas associados à água dura. A biotecnologia também abre espaço para uma nova lógica de economia circular. A empresa Univ Quantum, por exemplo, combina resíduos agrícolas, como cascas de laranja e bagaço de cana-de-açúcar, com cepas microbianas para produzir bioenzimas de alta performance.
A dependência de insumos petroquímicos pode diminuir, enquanto resíduos agrícolas e matérias-primas regionais passam a integrar cadeias de produção mais flexíveis. Mas novos riscos surgem no lugar dos antigos. A dependência de petróleo pode ser substituída por exposição a matérias-primas agrícolas, capacidade de fermentação e propriedade intelectual em biotecnologia.

Secas, doenças agrícolas, custos de energia e conflitos geopolíticos continuam capazes de afetar o abastecimento. Além disso, empresas de biotecnologia que dominarem a produção de ingredientes podem avançar para o mercado de produtos acabados, tornando-se concorrentes diretos das marcas tradicionais.
A máquina de lavar pode virar parte do ecossistema de bem-estar
O terceiro cenário é talvez o que mais altera a relação do consumidor com a categoria. A evolução de máquinas de lavar inteligentes, sensores e sistemas conectados de dosagem pode fazer com que o cuidado com as roupas seja personalizado de acordo com características como sensibilidade da pele, presença de alergênicos, tipo de tecido, condições da água e rotina da casa.
O detergente deixa de ser simplesmente um produto utilizado durante a lavagem para fazer parte de um sistema maior de cuidado. Os registros de patentes também apontam para essa direção. As patentes de detergentes com atributos relacionados à pele ou propriedades hipoalergênicas passaram de 43, em 2016, para 64, em 2025. Outros registros envolvem tecidos antimicrobianos, polímeros capazes de reduzir alergênicos, tratamentos probióticos e ingredientes associados à hidratação e ao microbioma da pele.

Um dos exemplos citados pela Mintel envolve uma publicação da CONOPCO com um detergente que utiliza polissacarídeos ativos, como pectina e maltodextrina resistente. Segundo a análise, esses componentes podem ser transferidos para a pele durante o uso da roupa e atuar sobre mecanismos relacionados à regeneração, hidratação e barreira cutânea.
O resultado potencial é uma mudança de território: da limpeza para o bem-estar, mas quanto mais personalizada for a experiência, maior será também a necessidade de confiança. Privacidade, segurança cibernética, complexidade de uso, acesso desigual e comprovação de alegações relacionadas a bem-estar aparecem como desafios para as marcas.
A principal conclusão da Mintel não é que uma dessas três tecnologias necessariamente vencerá as demais. O alerta é justamente o contrário: as empresas precisam se preparar para a combinação dos três movimentos. Isso significa antecipar decisões sobre quais competências devem permanecer dentro da companhia, quais tecnologias podem ser desenvolvidas por parceiros e quais ativos precisam ser protegidos como proprietários.
A Mintel projeta, portanto, uma fronteira cada vez menos definida entre cuidados com roupas, tecnologia para eletrodomésticos e bem-estar pessoal. A disputa, consequentemente, não será apenas por quem desenvolve o melhor produto. Será também por quem conseguir construir as melhores conexões entre IA, biotecnologia, eletrodomésticos e necessidades individuais do consumidor.
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