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Bem-estar ganha dimensão de governança em meio à pressão sobre executivos e colaboradores

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Da cadeira de CMO à sala de aula: Antonio Santos leva experiência prática ao CMO Sprints

O bem-estar ganha cada vez mais espaço nas discussões sobre desempenho, retenção e governança. Mais de 70% dos CEOs analisados no Relatório Bem-Estar 2026, desenvolvido pela FSB Comunicação em parceria com Rituaali e Espresso, enfrentam níveis de estresse classificados como clinicamente altos.

Entre os executivos submetidos a altos níveis de pressão, os sinais de desgaste impactam frentes importantes para a performance, como o uso adequado do tempo e a qualidade da tomada de decisão. Um em cada três gestores máximos afirma que a cobrança para demonstrar resultados e provar seu valor estratégico ao conselho aumentou em relação aos dois trimestres anteriores. 

A pressão também ocupa a agenda: 57% dos principais líderes gastam uma parcela desproporcional do expediente com urgências e crises operacionais de curto prazo. O problema não se restringe à quantidade de trabalho. O relatório associa a exposição prolongada ao estresse e à privação de sono a impactos sobre funções executivas relacionadas à flexibilidade cognitiva, amplitude de análise e avaliação de riscos.


 

O desgaste começa dentro da própria liderança

A estrutura de comando também aparece como fonte de pressão. Em empresas com faturamento superior a US$ 5 bilhões, os presidentes entrevistados apontam integrantes da própria equipe de liderança sênior como o principal fator de estresse entre seus diferentes públicos de relacionamento. Mais de um quarto dos CEOs cita especificamente o CFO como a figura que oferece maior risco à estabilidade e segurança no cargo, seguido pelo COO.

O dado ajuda a deslocar a discussão sobre saúde executiva de uma questão exclusivamente individual. A pressão está relacionada também à estrutura de governança, à relação com conselhos e à dinâmica entre os próprios integrantes da alta administração. O relatório observa que, quando a agenda do principal executivo é absorvida por demandas operacionais, sinais de problemas sistêmicos podem permanecer fora do radar até que produzam consequências mais graves.

É nesse ponto que o conceito de sustentabilidade humana apresentado pelo estudo ganha importância. A proposta parte da ideia de que corpo, mente e espírito precisam ser tratados como componentes da capacidade de manter performance ao longo do tempo. O relatório reúne 17 tendências e insights em cinco grandes frentes: alta liderança, longevidade, viagens e hospitalidade, estética e comportamento, além de saúde corporativa e governança.


Saúde vira indicador de gestão

A mudança mais relevante para as empresas, porém, está na passagem do bem-estar de benefício para instrumento de gestão. O relatório aponta uma transição de modelos reativos, voltados ao tratamento de problemas já manifestados, para estratégias de identificação e prevenção de riscos à saúde. A integridade física e mental da força de trabalho passa a ser relacionada à sustentabilidade do negócio.

A questão também ganha dimensão regulatória. O relatório cita a atualização da NR-1, que determina a identificação, o mapeamento e o gerenciamento de fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos. Na prática descrita pelo documento, problemas como sobrecarga, ansiedade e burnout deixam de ser tratados apenas como questões internas de RH e passam a integrar a agenda de gestão de riscos das organizações.

Há ainda uma dimensão financeira. Dados globais compilados pela Mercer Marsh Benefits apontam para uma projeção de 11% de crescimento nos custos com sinistros e despesas médicas assistenciais corporativas. Segundo o relatório, trata-se do sexto ano consecutivo de reajustes na casa dos dois dígitos, pressionando os orçamentos corporativos e aumentando o interesse por estratégias preventivas.

A relação entre saúde e retenção torna o tema ainda mais estratégico. Levantamento da Deloitte citado no estudo mostra que 74% dos trabalhadores priorizam a manutenção do bem-estar em detrimento da progressão hierárquica tradicional. Entre os profissionais C-Level, 75% afirmam estar dispostos a deixar o emprego atual por oportunidades que ofereçam melhores condições de suporte à saúde e à integridade biológica.

Os números ajudam a explicar por que o bem-estar começa a ocupar uma posição diferente na estratégia empresarial. O tema reúne, no mesmo eixo, uma liderança submetida a níveis elevados de estresse, custos crescentes de assistência médica, mudanças nas expectativas dos profissionais e novas exigências de gestão dos riscos psicossociais. Cuidar da saúde é um tema que faz parte da discussão sobre quanto tempo pessoas e organizações conseguem sustentar a alta performance.


Viver mais já não basta

A mudança de comportamento também aparece na maneira como o mercado de wellness trata o envelhecimento. A busca por longevidade deixa de se concentrar apenas no número de anos vividos e passa a privilegiar a manutenção da autonomia, da capacidade cognitiva e da funcionalidade. O relatório chama essa mudança de passagem de lifespan para joyspan, em uma abordagem que associa longevidade a lucidez, mobilidade, propósito e satisfação.

Essa lógica altera inclusive os símbolos de status. O acompanhamento de sono, variabilidade da frequência cardíaca e glicose aparece como parte de uma cultura de monitoramento da própria biologia. Wearables e exames preditivos passam a funcionar como ferramentas para acompanhar o desempenho físico e mental, enquanto o domínio sobre a saúde é apresentado como uma nova forma de distinção social.

A transformação também aparece na economia de experiências. Dados da VML citados pelo relatório mostram que 87% das pessoas direcionam tempo e recursos financeiros para vivências que entreguem um resultado transformador. O interesse por retiros, clínicas de estilo de vida e spas médicos, portanto, passa a incorporar uma expectativa de mudança duradoura de hábitos e de recuperação física e mental, e não apenas de afastamento temporário da rotina.


Menos estímulo, mais recuperação

A busca por recuperação está alterando também a indústria de viagens. O relatório identifica uma procura crescente por experiências de baixa estimulação, associadas ao chamado timid tourism. Para viajantes submetidos a excesso de interações e decisões durante o trabalho, silêncio, privacidade, previsibilidade e isolamento passam a fazer parte da proposta de valor da hospitalidade.

Uma das manifestações desse movimento são os dark retreats, experiências de isolamento sensorial em ambientes sem luz. O relatório relaciona a tendência ao excesso de telas, à hiperestimulação digital e à poluição luminosa, descrevendo a ausência de estímulos como uma forma de favorecer períodos de desaceleração.

Mas a recuperação não depende necessariamente de uma viagem ou de uma pausa prolongada. A chamada microdosagem de bem-estar, identificada em análises da Accor, propõe inserir pequenas ações restauradoras na rotina, como exercícios de respiração, mobilidade física e momentos de desconexão digital. A ideia é distribuir essas intervenções ao longo da jornada em vez de concentrar todo o esforço de recuperação em férias ou períodos sabáticos.

Do ambiente à alimentação

A preocupação com a sobrecarga também chega aos espaços físicos. O relatório identifica o avanço de ambientes pensados para reduzir estímulos e carga cognitiva, em uma tendência associada ao Neo Déco. Mármore, madeira, couro, cobre e latão aparecem na composição de espaços que buscam transmitir ordem, estabilidade e previsibilidade.

Outra tendência identificada pelo Pinterest Predicts é a chamada vibe glacial, marcada por tons de azul muito claro, superfícies opalescentes e referências visuais ao frio. A estética aparece como resposta à saturação de estímulos e ao desejo por ambientes percebidos como mais calmos.

Na alimentação, a mesma busca por equilíbrio aparece na valorização da microbiota e da relação entre intestino e cérebro. O relatório aponta para uma nutrição mais personalizada, com fibras, alimentos fermentados, prebióticos e probióticos ocupando espaço em estratégias voltadas à energia, imunidade e saúde mental.

Leia também: 86% das academias ampliaram base de alunos em 2026, aponta Wellhub



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Ian Cândido

Repórter

AUTOR

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