Você comenta casualmente sobre trocar o colchão. Minutos depois, o feed do Instagram exibe uma sequência quase infinita de anúncios de marcas de cama, travesseiros e suplementos para melhorar o sono. Nenhuma busca no Google, nenhum clique, nenhuma pesquisa. A pergunta surge instantaneamente: meu celular está me escutando?
A sensação de vigilância digital nunca esteve tão presente. Um estudo recente da Universidade de Amsterdã mostra que consumidores associam cada vez mais a personalização extrema de anúncios à ideia de escuta ativa, ainda que não compreendam exatamente como seus dados são coletados e processados. Para a pesquisadora Dong Zhang, esse desconhecimento alimenta teorias e amplia a percepção de invasão de privacidade.
Mas, segundo Caio Motta, cofundador da agência Elementar Digital e especialista em plataformas como Google e Meta, a realidade é menos cinematográfica e muito mais complexa. Ele afirma que o volume, a profundidade e a inteligência na análise dos dados já permitem prever desejos, comportamentos e decisões com altíssima precisão.

Ele destaca que essas empresas sempre foram, antes de tudo, companhias de Inteligência Artificial. Elas desenvolveram sistemas de machine learning capazes de correlacionar milhares de variáveis e antecipar interesses com enorme eficiência.
Muito além do microfone
Para quem trabalha diariamente nos bastidores das plataformas, como Google e Meta, o segredo está na sofisticação dos algoritmos e na quantidade massiva de sinais comportamentais coletados. O histórico de navegação, buscas, curtidas, comentários, tempo gasto em vídeos, interações com anúncios e perfis seguidos são apenas a camada mais visível. A isso se somam dados relacionais, como quem são seus amigos, colegas de trabalho e familiares, e os padrões de comportamento dessas conexões.
O caso inicial dos colchões, por exemplo, pode ser justificado pelo compartilhamento de dados do mesmo endereço IP. Ou seja, se alguém que mora com você pesquisa colchões, o sistema já sabe que vocês compartilham o mesmo Wi-Fi, o mesmo endereço IP e possuem uma relação próxima. “Não é preciso microfone para conectar esses pontos”, frisa Caio.

O elo invisível entre o mundo físico e o digital
A engrenagem fica ainda mais potente quando entram em cena os dados fornecidos diretamente pelos anunciantes. E-commerces compartilham informações sobre páginas visitadas, carrinhos abandonados e produtos comprados. Varejistas integram transações físicas. Programas de fidelidade conectam hábitos de consumo ao perfil digital do usuário.
“O CPF informado na farmácia para ganhar desconto cria uma ponte direta entre o mundo offline e o online. Isso permite que o algoritmo entenda seus padrões e antecipe novos interesses. Se você comprou whey protein na terça, há uma grande chance de receber anúncios de academias, roupas esportivas ou aplicativos de treino nos dias seguintes”, exemplifica Caio.

O resultado é uma publicidade altamente preditiva, capaz de sugerir soluções antes mesmo de o consumidor reconhecer plenamente sua necessidade. Parte da sensação de espionagem, no entanto, tem origem menos tecnológica e mais psicológica. Trata-se do chamado viés de confirmação. Somos expostos a centenas de anúncios por dia, mas ignoramos quase todos. Quando um deles coincide com uma conversa recente, o cérebro destaca o “acerto” e ignora os inúmeros “erros”.
“A ilusão de precisão nasce desse filtro mental. O cérebro cria uma narrativa de vigilância quando, na prática, houve apenas uma coincidência estatística altamente provável”, explica o especialista.
Um mercado bilionário movido a resultado
O crescimento da publicidade digital reforça esse cenário. Segundo o Digital AdSpend 2025, do IAB Brasil, o investimento em mídia online atingiu R$ 37,9 bilhões em 2024 — uma alta de 60% desde 2020. Hoje, nove setores da economia já direcionam mais da metade de seus orçamentos para o digital. “Esse dinheiro não se sustenta em teorias conspiratórias. Ele existe porque entrega retorno real, mensurável e escalável”, destaca Motta.

Apesar das vantagens, o modelo levanta debates éticos importantes. As mesmas ferramentas que ajudam pequenas empresas a alcançar consumidores com intenção real de compra também podem ser usadas para práticas discriminatórias, como exclusão de grupos ou diferenciação de preços com base em gênero, raça ou localização.
“Esse é um limite inegociável. Casos assim já renderam multas bilionárias fora do Brasil e precisam ser combatidos com rigor”, alerta.
Nem todo risco vem dos gigantes
Outro ponto essencial é distinguir os grandes players das plataformas menos conhecidas. Google e Meta são empresas públicas, auditadas, submetidas a legislações rigorosas, como a LGPD no Brasil. O maior risco, segundo Motta, muitas vezes está em aplicativos obscuros, jogos aparentemente inofensivos e data brokers que solicitam permissões excessivas.
“A pergunta mais importante não é se o Google está ouvindo você, mas quais aplicativos instalados no seu celular pedem acesso ao microfone sem nenhuma justificativa funcional”, provoca.

Como reduzir o rastreamento
Para quem deseja limitar a coleta de dados, algumas medidas práticas ajudam: usar navegadores focados em privacidade, como o Brave, navegar em modo anônimo, revisar periodicamente as permissões dos aplicativos e evitar fornecer dados pessoais desnecessários, inclusive em lojas físicas.
Além disso, compreender como funciona a publicidade digital deixou de ser uma curiosidade técnica e se tornou uma forma de alfabetização contemporânea. Caio indica que em um mercado de quase R$ 38 bilhões, entender a lógica dos dados é entender como o mundo funciona hoje.
“Não é uma realidade digna de filmes de espionagem, mas, mesmo sem ouvir, os algoritmos sabem muito sobre você. E fazem isso com um detalhe essencial: o seu consentimento, muitas vezes escondido naqueles termos de uso que ninguém lê”, conclui.
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