
Para a Geração Z, chegar à vida adulta não significa necessariamente sentir que a vida entrou nos eixos. Conseguir o primeiro emprego, construir uma carreira e ter autonomia financeira funcionam como marcos relativos dessa transição, mas não garantem a sensação de estabilidade nem de avanço no ritmo esperado.
É o que mostra o levantamento “GenZ faz 30 anos: o rito de passagem para a vida adulta”, do InstitutoZ, que ouviu aproximadamente 7 mil brasileiros. A pesquisa identifica três estágios nessa trajetória. Os Sonhadores, entre 17 e 21 anos, projetam possibilidades para o futuro; os Descobridores, de 22 a 25 anos, vivem uma fase de experimentação combinada a escolhas mais pragmáticas; e os Reorganizadores, de 26 a 30 anos, passam a buscar maior estabilidade material e planejamento.
Entre os Sonhadores, 46% apontam a insegurança profissional como um dos fatores que mais dificultam a sensação de se tornarem adultos. A percepção se intensifica justamente na etapa seguinte: entre os Descobridores, 50% fazem a mesma avaliação. O resultado chama atenção porque essa é a fase em que, em uma trajetória tradicional, a entrada mais consistente no mercado de trabalho deveria começar a produzir justamente o efeito contrário, que é mais independência, previsibilidade e segurança.

O problema não está apenas em conseguir um trabalho, mas em transformar o trabalho em uma perspectiva concreta de futuro. A Geração Z começou a trajetória profissional em meio a crises econômicas, mudanças aceleradas nas relações de trabalho e uma crescente dificuldade de associar o emprego à estabilidade financeira. O antigo roteiro de “estudar, trabalhar, crescer e conquistar autonomia” perdeu parte da previsibilidade.
Essa ruptura também aparece na maneira como os jovens enxergam o próprio desempenho em relação aos demais. Mais da metade da Geração Z afirma sentir que está atrasada diante de pessoas da mesma idade. A percepção aparece entre 50% dos Sonhadores, chega a 54% dos Descobridores e permanece em 52% entre os Reorganizadores. Ou seja, envelhecer não resolve necessariamente a sensação de estar ficando para trás.
Mesmo quando algumas das etapas tradicionalmente associadas à vida adulta já foram cumpridas, como concluir a formação, trabalhar e ter renda própria, a comparação continua funcionando como uma régua para avaliar a própria trajetória. E essa régua ganhou escala com as redes sociais.
48% da Geração Z dizem se comparar frequentemente com pessoas da mesma idade nas plataformas digitais, comportamento que atinge seu ponto mais alto entre os Descobridores. A diferença em relação às gerações anteriores está na dimensão dessa vitrine: em vez de comparar a própria trajetória com colegas, amigos ou familiares, os jovens podem acompanhar simultaneamente centenas de pessoas e seus empregos, viagens, conquistas financeiras, relacionamentos e estilos de vida.

O próprio ambiente de trabalho contribui para alimentar a sensação de desgaste. Dados da Cigna indicam que 91% dos trabalhadores da Geração Z relatam estresse relacionado ao trabalho, enquanto cerca de 98% apresentam sinais de esgotamento extremo. A contradição está justamente no discurso de produtividade que acompanha essa geração de que quanto mais conteúdo sobre desempenho, organização e otimização da rotina é consumido, maior parece ser também a cobrança para fazer tudo melhor, mais rápido e de forma contínua.
A dimensão profissional, porém, não pode ser dissociada da social. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que entre 17% e 21% das pessoas de 13 a 29 anos relatam sentir solidão com frequência. O cenário ajuda a desenhar um paradoxo da vida adulta contemporânea de que nunca foi tão fácil acompanhar outras pessoas, mas isso não significa necessariamente construir vínculos mais sólidos. Ao mesmo tempo em que a tecnologia amplia o contato, as redes também aumentam a exposição a modelos de vida que podem reforçar a sensação de inadequação.
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