
O avanço simultâneo de diferentes indicadores de consumo tem redesenhado a lógica de valor na moda. De um lado, a economia global do bem-estar caminha para atingir 9 trilhões de dólares até 2028, praticamente o dobro do registrado em 2019, com o segmento de bem-estar mental crescendo a uma taxa anual de 12,2%, conforme dados da WGSN.
De outro, o mercado de revenda revela uma mudança simbólica relevante: itens em estado razoável cresceram 32%, bolsas com desgaste visível avançaram 45% e jaquetas de couro com aparência usada registraram alta de 155%. Embora pertençam a universos distintos, esses dados apontam para uma mesma transformação estrutural. A ideia de valor deixa de estar associada à perfeição, à novidade ou ao excesso, e passa a se ancorar em atributos como conforto emocional, autenticidade e durabilidade.
O desgaste ganha significado, o descanso ganha legitimidade e o tempo deixa de ser um inimigo do produto para se tornar parte da sua narrativa. É a partir dessa reorganização que o relatório “Propulsores estéticos 2028: moda”, da WGSN, estrutura cinco direções que devem orientar o design nos próximos anos.

Autenticidade Espontânea
A primeira dessas direções, a autenticidade espontânea, emerge diretamente da valorização do real. Em oposição à estética polida que marcou ciclos anteriores, a imperfeição intencional passa a ser incorporada como linguagem.
Marcas de uso, acabamentos irregulares e combinações não filtradas deixam de ser ruído para se tornarem sinal de identidade. O chamado “efeito pátina”, evidenciado pelos dados de revenda, ilustra como o desgaste deixa de depreciar e passa a agregar valor simbólico.

Pausa Reenergizante
A pausa reenergizante traduz o impacto direto do crescimento do bem-estar sobre o design. Em um cenário de burnout e pressão financeira, o descanso deixa de ser exceção e passa a ser necessidade estrutural.
Práticas de desaceleração ganham legitimidade, e o vestir acompanha esse movimento ao incorporar conforto sensorial como atributo central. Texturas táteis, materiais naturais e construções acolhedoras não são apenas escolhas estéticas, mas respostas a uma demanda emocional clara.
Essa lógica se desdobra em diferentes categorias, do sportswear com isolamento térmico ampliado à moda íntima com referências artesanais, passando por acessórios com forte apelo sensorial. O produto passa a operar como extensão do cuidado, refletindo uma moda que não apenas veste, mas acolhe.

Passado Reinventado
O passado reinventado aparece como continuidade dessa busca por significado. Em vez de uma nostalgia superficial, o que se observa é a reinterpretação de arquivos, técnicas e referências analógicas a partir de valores contemporâneos como procedência e durabilidade.
O interesse crescente por peças com história — evidenciado também pelo mercado de segunda mão — reforça essa direção, em que memória e inovação se combinam para gerar relevância.
Colaborações com artesãos ganham centralidade, conectando tradição e contemporaneidade e ampliando o valor cultural dos produtos. A moda se aproxima de uma lógica mais lenta, em que o tempo de produção e a origem dos materiais passam a importar tanto quanto o resultado final.

Expressão Excêntrica
Em contraste, a expressão excêntrica surge como válvula de escape diante desse cenário de contenção e busca por equilíbrio. Influenciada por subculturas e pelo escapismo, essa direção explora o exagero, o mistério e o dark romance como formas de expressão emocional mais intensas. Trata-se de uma resposta à padronização, que abre espaço para narrativas visuais mais ousadas e identidades mais performáticas.

Pra toda hora e lugar
Fechando o conjunto, a estratégia “pra toda hora e lugar” sintetiza a necessidade de segurança em tempos instáveis. A moda passa a ser encarada como investimento, priorizando qualidade, versatilidade e longevidade. Peças atemporais e bem construídas ganham protagonismo, refletindo um consumo mais racional e orientado pela durabilidade.
Essa mudança redefine a própria noção de luxo, que deixa de estar associada à novidade constante e passa a ser entendida como confiabilidade. O guarda-roupa se transforma em uma estrutura de estabilidade, acompanhando a busca por previsibilidade em outras dimensões da vida.

O que está além
Além dessas cinco direções, o relatório aponta uma transformação mais ampla no papel do design. A moda avança para uma dimensão multissensorial, incorporando elementos como fragrâncias e tecidos perfumados, ao mesmo tempo em que integra tecnologias que aproximam vestuário e cuidado com o corpo, como peças que interagem com a pele.
O diagnóstico da WGSN é que a moda de 2028 será definida menos por tendências isoladas e mais por sua capacidade de responder a necessidades humanas complexas. Entre o conforto e a expressão, a memória e a inovação, o design se reposiciona como linguagem estratégica para interpretar e acompanhar um consumidor em transformação.
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