
Talvez, ao terminar este artigo, você pense que nada do que eu disse seja exatamente surpreendente — e, sinceramente, eu espero que pense isso mesmo. Algumas obviedades precisam ser ditas de vez em quando, especialmente quando percebo que parte dos profissionais envolvidos na criação e no desenvolvimento de produtos parece não olhar para elas com a atenção que merecem.
Todo produto de massa precisa nascer equilibrando competitividade de custo, escalabilidade, atratividade e, claro, relevância para o público ao qual se destina. Sem isso, as chances de o produto não performar como esperado são grandes, e essa baixa performance inevitavelmente respinga no varejista, que terá pouco interesse em dar espaço para algo que não gira a gôndola. Curiosamente, quando observamos o universo das embalagens e o relacionamento com cooperativas e recicladores, percebemos paralelos muito similares.
O mundo das embalagens é vasto e muito mais complexo do que parece. Ele é marcado pela diversidade de materiais e características, o que exige conhecimento e estrutura para que a reciclagem se concretize. O alumínio, por exemplo, precisa ser separado entre latinhas e marmitex, pois não são reciclados juntos. No papel, há distinções entre papelão e papel misto, e cada um possui valor e destino diferentes.
No plástico, PET e PE são ambos recicláveis, mas, quando misturados, criam desafios relevantes no pós-consumo devido a incompatibilidades técnicas. Porém, há situações em que a reciclabilidade é limitada não pela técnica, mas pelo funcionamento do mercado. Os tubos industriais de papelão são um ótimo exemplo: embora recicláveis, muitas regiões não têm recicladores capazes de triturá-los por causa da espessura e dureza. E isso significa que, mesmo sendo tecnicamente viáveis, acabam no rejeito.

É verdade que muitas empresas têm observado mais atentamente a cadeia pós-consumo ao decidir quais embalagens colocarão no mercado. A categoria de Pet Food ilustra bem essa mudança: tradicionalmente dependente de embalagens multimateriais, ela começa a migrar para alternativas monomateriais ou compostas por substratos compatíveis, o que facilita muito o processo de reciclagem. Mas mudar a composição não basta. Afinal, isso não garante que a embalagem seja automaticamente reciclada, especialmente em um cenário no qual aquela categoria é historicamente conhecida pelas cooperativas como difícil ou inviável de processar.
Aprendi isso de maneira muito clara em uma visita a uma cooperativa em Alagoas. Encontrei no rejeito uma embalagem de Pet Food que eu sabia ser monomaterial. Perguntei à cooperada por que ela estava ali e recebi a resposta imediata: “Essa embalagem é multimaterial”. Ela apertou a embalagem com as mãos e completou dizendo que, pelo toque, já dava para perceber que era mistura de materiais. Só que, naquele caso, não era. Então virei a embalagem, mostrei o símbolo de reciclagem com o número 4, indicando polietileno de baixa densidade, e vi a surpresa no rosto dela. Ela simplesmente não sabia que já existiam embalagens monomateriais nessa categoria e seu olhar estava tão viciado que não foi capaz de perceber, mesmo com tanta experiência.

Foi nessa hora que tive dois aprendizados importantes. O primeiro é que comunicar de forma clara para a cadeia de reciclagem é tão essencial quanto comunicar ao consumidor. Não dá mais para acreditar que símbolos tímidos, escondidos em meio à avalanche de informações obrigatórias no verso de uma embalagem, sejam suficientes para orientar quem trabalha na triagem.
O segundo aprendizado é sobre escala. Enquanto poucas empresas fizerem essa transição, o volume continuará pequeno demais para ser percebido pelas cooperativas – que seguirão acreditando que todas as embalagens daquele tipo não valem o esforço. Uma mudança real só se torna visível quando a escala chega — e o cenário ideal seria ver as empresas caminhando juntas, de modo a alinhar decisões e transformar uma categoria inteira. Ainda assim, se apenas a líder de mercado der o primeiro passo, o impacto já será muito relevante, tanto pela representatividade do volume quanto pela influência natural sobre os concorrentes.
Essas decisões não são apenas operacionais, mas estratégicas. E, diante de regulamentações que começam a penalizar embalagens não recicláveis e repassar aos donos de marca os custos do rejeito gerado nas cooperativas, não há mais espaço para questionar se o tema é relevante. Ele já é. A pergunta passou a ser outra: como podemos fazer isso de maneira clara, objetiva, competitiva e responsável, de modo a contribuir para o crescimento do negócio sem gerar externalidades que se voltarão contra a própria empresa no futuro?

Apesar de complexo, esse caminho é totalmente possível. Ao longo dos anos, aprendemos que mudanças profundas na forma de desenvolver e comunicar os produtos dificilmente acontecem de maneira isolada. São transformações que exigem união, diálogo e complementariedade de competências. E parceiros como o Cazoolo têm justamente se especializado em circularidade e na construção de pontes e aproximações entre os atores que costumam viver distantes, mas precisam trabalhar em sinergia para que um projeto deixe de ser apenas uma ideia e se torne algo implementável no mundo real. Hoje, um produto não pode mais ser apenas economicamente sustentável; ele precisa carregar responsabilidade social e ambiental como partes inseparáveis da sua estratégia.
Por isso, no seu próximo desenvolvimento, talvez valha encarar a cadeia pós-consumo como se ela também fosse um consumidor. Pergunte a si mesmo: estou comunicando de forma clara e assertiva? Estou ajudando a dar escala a uma solução que melhora não só o negócio, mas também o impacto social e ambiental? Quando esse raciocínio passar a fazer parte do processo, algo mudará. A conexão ganhará força. E, assim como aconteceu comigo, talvez você descubra que desenvolver negócios que geram valor econômico, enquanto entregam benefícios sociais e ambientais, não só é possível, como pode ser exatamente onde está o seu propósito.
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