Nem todo problema precisa virar processo

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produtividade e eficiencia

Nem todo problema precisa virar processo

Uma entrega atrasa. Para evitar que aconteça de novo, criamos uma reunião semanal. Um briefing chega incompleto. A resposta é acrescentar uma aprovação. Uma decisão dá errado. A partir dali, cinco pessoas passam a participar de todas as decisões parecidas. Cada uma dessas respostas parece razoável quando olhamos apenas para o problema que a provocou. A dificuldade aparece na soma. A reunião permanece na agenda, a aprovação vira regra e as cinco pessoas continuam envolvidas mesmo quando o contexto já mudou. Aos poucos, o time deixa de usar processos para trabalhar melhor e passa a trabalhar para sustentar os processos que criou. 

A primeira resposta costuma mirar o sintoma 

Esse acúmulo começa porque reuniões, formulários e aprovações dão uma sensação imediata de controle. Alguma providência foi tomada e o problema parece encaminhado. Só que acompanhar uma falha não é o mesmo que corrigir o que a provocou. 

Se uma entrega atrasou porque ninguém sabia quem decidia, incluir mais pessoas na conversa aumenta a dúvida. Se o briefing veio incompleto porque faltava contexto, acrescentar uma aprovação apenas faz o erro ser descoberto mais tarde. A nova regra pode impedir que o problema passe despercebido, mas não necessariamente evita que ele aconteça novamente. Em Marketing, esse mecanismo se multiplica com facilidade porque uma mesma campanha atravessa várias áreas. Cada uma tenta proteger sua parte do trabalho com um alinhamento, um formulário ou uma validação. Quando essas decisões são tomadas separadamente, nenhuma parece excessiva. Juntas, elas criam uma operação em que o time passa mais tempo mostrando que o trabalho está sob controle do que fazendo o trabalho avançar. A primeira conta aparece na agenda. Uma reunião de uma hora com oito pessoas consome oito horas de trabalho, além do tempo de preparação e da interrupção da concentração. A segunda conta é menos visível: quanto mais decisões sobem para fóruns coletivos, menos autonomia fica com quem conhece o problema de perto. A burocracia, portanto, não custa apenas tempo. Ela também afasta a decisão da execução. 


O tamanho da operação muda a resposta 

Isso não significa que processos sejam inimigos da produtividade. Eles se tornam mais importantes à medida que a operação cresce, porque memória e conversas paralelas deixam de ser suficientes. A questão não é escolher entre ter ou não ter processos, mas entender quanto controle cada contexto exige. 

Já estive à frente de uma operação de Marketing com mais de cem pessoas, várias marcas e muitas entregas simultâneas. Nesse cenário, papéis claros, fóruns de decisão e padrões compartilhados evitavam que o trabalho dependesse de quem estava na sala ou de quem se lembrava do combinado. O processo permitia coordenar uma complexidade que já existia.

Hoje, trabalho em uma estrutura muito mais enxuta. Se eu importar os mesmos controles, a complexidade não será organizada, será criada por eles. O processo adequado para cem pessoas pode ser burocracia para cinco, assim como a informalidade que funciona para cinco pode virar caos quando o time cresce. 

Essa comparação muda a pergunta. Em vez de discutir se a empresa tem processos demais ou de menos, vale observar se eles combinam com o tamanho do time, o risco das decisões e o número de pessoas que precisam trabalhar juntas. Só depois dessa leitura faz sentido decidir qual regra criar. 

O diagnóstico vem antes da regra 

Se o processo precisa responder ao contexto, a primeira pergunta diante de uma falha não deveria ser “que controle vamos acrescentar?”, mas “o que faltou para o trabalho dar certo?”. Pode ter faltado informação, capacidade, prioridade, treinamento ou clareza sobre quem deveria decidir. Cada causa pede uma solução diferente. 

Quando falta contexto, melhorar o briefing costuma ajudar mais do que criar uma aprovação. Quando ninguém sabe quem decide, definir um responsável é mais útil do que montar um novo fórum. Quando alguém ainda não domina uma tarefa, treinamento pode substituir meses de revisão. E, se o erro foi uma exceção difícil de repetir, talvez nenhuma nova regra seja necessária. 

Também importa entender a frequência e o risco do problema. Um erro recorrente que compromete receita, reputação ou segurança pede uma proteção mais forte. Um episódio isolado e de baixo impacto pode exigir apenas uma conversa. Aplicar o mesmo nível de controle aos dois casos é uma maneira cara de buscar tranquilidade. 

A partir desse diagnóstico, a reunião deixa de ser uma resposta automática e passa a ter uma função específica. Ela faz sentido quando há uma decisão a tomar ou quando várias pessoas precisam combinar como o trabalho vai continuar. Se ninguém sabe dizer o que precisa sair daquela conversa, provavelmente o problema não precisa de uma reunião. 

Um processo útil também pode perder a função 

Mesmo quando a nova regra é necessária, a decisão ainda não terminou. Todo processo deveria nascer com uma explicação clara sobre o problema que pretende resolver e com um momento para ser revisto. Sem isso, uma solução adequada hoje pode se transformar na burocracia de amanhã. 

Isso acontece porque a operação muda mais rápido do que os ritos. A crise passa, o time aprende, a equipe cresce ou diminui, mas a reunião continua na agenda. Como cada processo isolado parece pequeno, raramente alguém se sente autorizado a questioná-lo. O peso só fica evidente quando todas essas pequenas obrigações já ocupam uma parte relevante da semana. Revisar processos não significa começar do zero. Significa perguntar se o problema original ainda existe, se a regra realmente o reduziu e se existe hoje uma forma mais simples de obter o mesmo resultado. Às vezes, a resposta será manter o rito. Em outras, será diminuir a frequência, reduzir o número de participantes ou simplesmente encerrá-lo.

Um bom processo não se mede pela quantidade de controle que cria, mas pelo trabalho que consegue facilitar. Ele esclarece decisões, reduz erros repetidos e devolve autonomia a quem executa. Se uma nova camada apenas ajuda a encontrar o problema mais tarde, sem evitar que ele aconteça, talvez ela esteja administrando a falha em vez de resolvê-la. Produtividade não é cumprir mais ritos em menos tempo. É construir uma operação capaz de aprender com os problemas sem transformar cada um deles em uma obrigação permanente.

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Roberta Savattero

Marketing & Operations Director na ORYX

Roberta Savattero é executiva de Marketing e negócios. Liderou transformação, posicionamento, crescimento e adoção de produtos em empresas como Alice, N26, Clara, Unilever e Nestlé. Hoje, ajuda a construir a ORYX. Em sua trajetória, transitou entre estratégia, produto, comunicação, operação e aprendeu que boas ideias só mostram sua força quando encontram perspectivas diferentes das que as criaram. É dessa experiência que nasce a palestra Os pontos cegos das boas ideias.

AUTOR

Roberta Savattero

Marketing & Operations Director na ORYX

Roberta Savattero é executiva de Marketing e negócios. Liderou transformação, posicionamento, crescimento e adoção de produtos em empresas como Alice, N26, Clara, Unilever e Nestlé. Hoje, ajuda a construir a ORYX. Em sua trajetória, transitou entre estratégia, produto, comunicação, operação e aprendeu que boas ideias só mostram sua força quando encontram perspectivas diferentes das que as criaram. É dessa experiência que nasce a palestra Os pontos cegos das boas ideias.

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