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O papel da arquitetura e urbanismo na identidade das grandes metrópoles

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Tempo de Leitura 4 min

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O papel da arquitetura e urbanismo na identidade das grandes metrópoles

Não sou arquiteto e nem urbanista. Mas trabalho com comunicação e, talvez por isso, preste tanta atenção ao que não é dito, mas sentido, vivido e experimentado. Arquitetura e urbanismo comunicam, e, nas grandes cidades, essa comunicação é contínua, silenciosa e poderosa, capaz de moldar comportamentos, estilos de vida e criar vínculos profundos. Algumas metrópoles se destacam pelo que exibem, enquanto outras dizem mais pela experiência que oferecem.

A arquitetura e o urbanismo são, antes de tudo, instrumentos de construção de identidade. Dão cara, personalidade e memória às grandes cidades. Muito além da estética, organizam a vida cotidiana, regulam o encontro entre as pessoas, influenciam a forma como nos deslocamos, trabalhamos e nos relacionamos com o espaço público. Cidades bem projetadas não são apenas bonitas, são acolhedoras e inclusivas.

Essa reflexão ficou ainda mais clara após experiências recentes em diferentes cidades. No ano passado, estive em Dubai. Um lugar de impacto imediato, monumental, onde tudo parece projetado para impressionar. É impossível não reconhecer sua grandiosidade técnica e econômica. Mas, ao mesmo tempo, tive dificuldade em criar vínculo. A cidade me pareceu rígida, excessivamente controlada, com pouca margem para o acaso, para o encontro espontâneo, o caminhar sem destino. 

Já neste ano, ao visitar Singapura, a sensação foi oposta. Há quem diga que a cidade se resume ao icônico Marina Bay Sands. Ele é impressionante, sem dúvida. Mas essa leitura é superficial. Ao caminhar pela cidade, percebi algo muito mais sofisticado, uma arquitetura inclusiva, generosa e profundamente consciente de seu papel urbano. Singapura é uma cidade relativamente jovem, mas demonstra maturidade rara no modo como pensa seus espaços.

O que mais me chamou atenção não foram apenas os edifícios, mas aquilo que existe entre eles: os vãos livres. Há uma generosidade evidente nos espaços, com áreas amplas, abertas, contínuas, sem barreiras desnecessárias, circulação fluida e prioridade ao pedestre. A cidade deixa passar e não há a sensação de confinamento comum a grandes centros financeiros. Caminhar por Singapura é confortável, intuitivo e quase convidativo, como se o espaço urbano estivesse permanentemente em diálogo com quem o ocupa.

O verde, por sua vez, não aparece como mero recurso paisagístico ou elemento decorativo aplicado ao térreo dos edifícios. Ele sobe, escala, atravessa fachadas, terraços, varandas e coberturas. O verde faz parte da arquitetura, não como adorno, mas como estrutura. É um componente funcional, climático e simbólico. Em vez de competir com a natureza, a cidade a incorpora.

Outro elemento que materializa essa relação entre cidade, arquitetura e emoção são as árvores icônicas de Singapura. Não apenas as naturais, mas também aquelas concebidas como discurso urbano, como as Supertree Grove. Elas não são cenográficas, mas funcionam como marcos visuais, reguladores climáticos e símbolos culturais. 

Em Singapura, a árvore deixa de ser apenas paisagem e passa a ser mensagem. Comunica futuro, cuidado ambiental e visão de longo prazo. Ao mesmo tempo, cria pertencimento e afeto. É natureza elevada à condição de narrativa urbana, algo que não apenas se vê, mas se sente.

Essa presença constante da natureza cria uma cidade visualmente mais silenciosa, respirável e humana. O concreto não domina, mas convive. Esse mesmo princípio se reflete na relação entre antigo e novo. Singapura não apaga sua história para dar lugar ao contemporâneo. Pelo contrário. Edifícios históricos convivem com projetos atuais de forma respeitosa e coerente, como no entorno da National Gallery Singapore e da The Arts House at the Old Parliament.

E talvez o aspecto mais potente dessa cidade esteja na forma como a arte ocupa o espaço público. Não como exceção, mas como regra. Esculturas de artistas como Anish Kapoor, Fernando Botero e nomes relevantes da arte asiática aparecem em praças, eixos corporativos e áreas de circulação cotidiana. Obras permanentes e pensadas como parte da paisagem, não como eventos temporários, tornam a cidade um museu a céu aberto, mas sem perder sua funcionalidade. 

No fim, o que Singapura ensina, e o que muitas metrópoles ainda parecem ignorar, é que arquitetura e urbanismo não são apenas técnicas construtivas ou decisões de mercado. As cidades que encantam são aquelas que acolhem, geram conexão e pertencimento, mesmo para quem visita pela primeira vez. Porque, no fundo, a verdadeira arquitetura não é a que se impõe ao olhar, mas a que constrói vínculos. 

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Bruno Nuciatelli é head de Marketing e Relacionamento com Clientes na Tecnisa

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