
Começou com Ailton Krenak, o que já diz muito sobre onde a conversa ia parar.
Reynaldo Gama, CEO da HSM e co-CEO da SingularityU Brazil, subiu ao palco da Cidade do Rock e abriu a programação do Rock in Rio Academy 2026 apontando para um abismo cognitivo, sendo de um lado, uma tecnologia com a qual a gente vem se fundindo em velocidade recorde e, do outro, uma ancestralidade da qual a gente vem se afastando na mesma proporção.
Não é discurso de saudosismo, mas um diagnóstico de capacidade. Enquanto o lado técnico da liderança acelerou, o lado humano ficou parado, com a distância entre os dois sendo o principal risco operacional da década.
Uma frase que marcou foi “O líder da atualidade e do futuro não é aquele que sabe mais. É aquele que consegue navegar melhor entre o que sabe e o que ainda não sabe." Para uma plateia de quinhentos executivos que passou vinte anos sendo promovida justamente por saber mais que os outros, essa é uma ótima reflexão.

O ativo que deixou de ser ativo
Vale entender o mecanismo antes de recusar a tese, pois conhecimento acumulado sempre foi vantagem competitiva porque era escasso e caro de replicar. Hoje é nenhum dos dois. Qualquer analista júnior com uma boa ferramenta produz em dez minutos o benchmark que justificava sua senioridade.
O que continua escasso é a capacidade de decidir com a informação incompleta que sobra e sustentar a decisão enquanto o cenário muda embaixo dela. Isso não está no que você sabe, mas em como você se comporta diante do que não sabe.
Hear, Soul, Mind: o framework que soletra a própria casa
Gama apresentou a estrutura que a HSM desenhou para responder a esse abismo e a sacada é que os três pilares soletram o nome da própria escola: Hear, Soul e Mind. H, S, M.
HEAR: a inteligência que a gente aprendeu a desprezar
Ilustrado por um coração no telão, o primeiro pilar se divide em dois. O Feelset é o irmão negligenciado do mindset, o de acessar intuição e os saberes mais profundos e sutis para perceber além do que é evidente. É a leitura que não aparece no dashboard.
A Inteligência Relacional é criar conexões genuínas, construir confiança e gerar espaços onde as pessoas pertencem.
Para o CMO, se você já perdeu uma campanha porque o dado dizia sim e alguma coisa no seu estômago dizia não, mas mesmo assim você seguiu o dado, porque seguir o dado é defensável em reunião. Feelset não é chutar contra a evidência, é reconhecer que percepção também é informação, e que ignorar sistematicamente a sua é uma forma cara de covardia gerencial. Quanto à inteligência relacional, seu time entrega mais para quem confia nele do que para quem cobra dele. Sempre entregou.
SOUL: a parte que ninguém coloca no PDI
O segundo pilar também se divide.
Autoconhecimento é reconhecer forças e limites, desenvolver autogestão e expressar a própria singularidade com autenticidade.
Legado e Propósito é compreender o que te move e direcionar escolhas para ampliar o impacto e a transformação que você quer deixar.
Para o CMO, reconhecer limite é a parte que ninguém faz. Todo mundo mapeia força, ninguém escreve a lista do que não sabe fazer, e é essa lista que define quem você precisa contratar. Um líder de marketing que não admite o próprio ponto cego contrata gente parecida com ele e constrói um time que erra tudo junto, na mesma direção, com muita convicção.
E propósito não é frase de parede, mas critério de decisão. Se você não sabe o que te move, você vai terceirizar a decisão para a métrica mais barulhenta do trimestre.
MIND: o pilar que a plateia subestimou
O terceiro reúne Criatividade, de imaginar possibilidades, romper padrões e transformar experiência, curiosidade e ideias em caminhos que ainda não existem, ou seja, Pensamento Crítico e Estratégico. Ampliar repertório, conectar pontos não óbvios e tomar decisões consistentes mesmo diante da incerteza.
No caso do CMO, "Mind" é o pilar que a maioria dos executivos acha que já domina, e é justamente onde a régua subiu mais. A criatividade deixou de ser diferencial no momento em que a máquina começou a gerar mil variações de qualquer coisa. O que não foi automatizado é conectar pontos não óbvios e decidir, conectar exige repertório fora da sua área. Decidir exige tolerar não ter certeza.

O que isso cobra de você na segunda-feira
O que Gama colocou na mesa é que a formação executiva tradicional desenvolveu bem um terço da equação. Mind foi treinado à exaustão em MBA, certificação e curso de dados. Hear e Soul ficaram para o coach, o retiro, o livro de aeroporto, sempre no território do opcional.
O argumento da manhã é que essa divisão não se sustenta mais, porque a tecnologia comeu justamente a parte que a gente mais treinou.
Fica o teste que foi provocado na reunião, na sua última decisão difícil de marketing, o que pesou mais, o que você sabia ou como você lidou com o que não sabia?
Se a resposta for a primeira, aproveite, pois esse jogo está acabando.
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