
A necessidade de se destacar em meio a tantas imagens, opiniões e referências nas redes sociais ganhou uma nova expressão. O dicionário Collins elegeu “mogging” como palavra do ano de 2026. Popularizada entre as gerações Z e Alpha, a gíria descreve situações em que alguém supera ou ofusca outra pessoa, seja pela aparência, confiança, desempenho ou status. O uso do termo cresceu 210% ao longo do ano, segundo o Collins.
A escolha ajuda a dimensionar uma característica da cultura digital contemporânea: a comparação permanente. Em plataformas nas quais imagens, conquistas, estilos de vida e resultados são expostos continuamente, destacar-se também significa estabelecer uma posição em relação aos demais. O vocabulário dos jovens transforma essa dinâmica em humor, mas a origem e a popularização da expressão também levantam questões sobre padrões de beleza, hierarquias sociais e a pressão por reconhecimento.

De comunidades masculinas à linguagem das redes
A origem de “mogging” remonta a aproximadamente 2016 e está associada ao universo do fisiculturismo. A expressão teria derivado da sigla AMOG, abreviação de “alpha male of the group”, ou macho alfa do grupo, utilizada para identificar o homem considerado fisicamente dominante em determinado ambiente.
O termo circulou inicialmente em comunidades masculinas da internet, incluindo espaços ligados à chamada manosfera, e posteriormente ganhou popularidade entre influenciadores de looksmaxxing, movimento que incentiva os homens a aprimorar a aparência física para alcançar padrões de atratividade. Com o tempo, o significado se ampliou e passou a descrever qualquer situação em que alguém ou alguma coisa deixa outra pessoa em posição de inferioridade por comparação.
Hoje, a utilização também aparece em situações cotidianas e de maneira irônica. Um adolescente pode dizer que um atleta foi superado por outro, assim como um produto pode ser considerado tão bom que ofusca um concorrente. A expressão ganhou espaço justamente por traduzir, em uma única palavra, a dinâmica de comparação que faz parte da experiência digital.
A popularização, entretanto, não elimina as controvérsias associadas ao conceito. Entre adolescentes, a exposição constante a esse tipo de comparação merece atenção especial, considerando a busca por aprovação e pertencimento durante essa fase da vida.

O que o mogging revela sobre o comportamento do consumidor
A escolha do Collins funciona como um indicador cultural. A linguagem utilizada pelas gerações mais jovens ajuda a identificar quais comportamentos estão ganhando espaço e quais referências influenciam a maneira como elas se relacionam com produtos, pessoas e marcas.
O desejo de se destacar não é novo no consumo. Moda, beleza, tecnologia e experiências sempre exploraram atributos de diferenciação, exclusividade e prestígio. A particularidade da cultura digital está na velocidade com que essas referências circulam e na exposição pública da comparação. Um produto não é avaliado somente por suas características, mas também pelo que representa quando colocado ao lado de outras escolhas.
Essa lógica cria oportunidades para empresas que trabalham com comunidades, influência e construção de identidade. Ao mesmo tempo, exige atenção à forma como a comunicação utiliza códigos culturais. Adotar uma gíria popular pode aproximar uma marca de determinado público, mas não garante identificação se a linguagem não estiver conectada à sua personalidade e às expectativas dos consumidores.
A discussão já chegou à publicidade. O Wall Street Journal identificou empresas incorporando expressões derivadas de tendências como looksmaxxing e o sufixo “maxxing” em suas campanhas. A Marriott, por exemplo, utilizou “weekend maxxing” para promover experiências de hospedagem, enquanto a marca de cuidados masculinos Harry's brincou com “jawmaxxing” na comunicação de um aparelho de barbear.
A apropriação comercial desses códigos, porém, envolve riscos. Quando uma marca utiliza uma linguagem associada a comunidades que promovem padrões físicos extremos, pode acabar legitimando comportamentos que não correspondem aos valores que deseja transmitir. No segmento de beleza e cuidados pessoais, a fronteira entre incentivar o autocuidado e alimentar a insatisfação com a própria aparência exige atenção.

Relevância cultural exige mais do que acompanhar tendências
O caso do mogging também reforça a importância de acompanhar a cultura digital para além dos assuntos que viralizam. Uma expressão pode nascer em uma comunidade específica, ganhar novos significados e chegar ao vocabulário cotidiano de milhões de pessoas. Nesse percurso, seu sentido original nem sempre desaparece completamente.
Ou seja, compreender essa transformação é tão importante quanto identificar uma oportunidade de campanha. O uso de códigos da internet precisa considerar o contexto em que surgiram, as interpretações que carregam e a relação que estabelecem com o posicionamento da empresa.
A escolha do Collins reforça ainda como as gerações mais jovens participam ativamente da transformação da linguagem e da cultura de consumo. Mais do que incorporar palavras da moda, as empresas que desejam construir relevância precisam entender as tensões sociais e os desejos que essas expressões traduzem.
No caso do mogging, a disputa por visibilidade pode até render conteúdos bem-humorados e oportunidades criativas. Mas também coloca em evidência uma questão importante para o Marketing: em uma cultura orientada pela comparação, como construir marcas que gerem identificação sem transformar o consumidor em alguém permanentemente preocupado em superar ou ser superado pelos outros?
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