
A percepção da obesidade no Brasil é marcada por sentimentos intensos de ansiedade e pela crença de que o peso está diretamente ligado a escolhas individuais. É o que mostra a Pesquisa Global de Percepção da Obesidade, conduzida pela Ipsos. Entre os brasileiros que vivem com obesidade, 71% afirmam sentir ansiedade frequente em relação ao próprio estado de saúde por causa do peso. Esse é o maior índice entre os 14 países analisados no levantamento.
O estudo entrevistou 14.500 adultos em diferentes mercados para entender como as pessoas com obesidade percebem sua condição, seus impactos no dia a dia e as barreiras para tratamento. No Brasil, viver com obesidade está fortemente associado a preocupações emocionais e sensação de vulnerabilidade em relação à saúde.
Além do alto nível de ansiedade, apenas 29% das pessoas com obesidade no país dizem estar satisfeitas com sua saúde física, enquanto entre aqueles que não vivem com a condição o índice sobe para 52%. A diferença de 23 pontos percentuais supera a média global observada na pesquisa.

Entre os brasileiros com obesidade, 44% dizem sentir vergonha ou constrangimento com frequência por causa do peso e 46% relatam ansiedade relacionada à forma como são percebidos pelos outros. Somada à preocupação com saúde de modo geral, 38% relatam sentimentos recorrentes de tristeza ou depressão.
A crença arraigada de que a obesidade é uma condição prevenível, que pode ser resolvida apenas com dieta e atividade física, sugere que muitas pessoas que vivem com obesidade se sentem pessoalmente responsáveis tanto por causar a própria condição quanto por encontrar a solução, ampliando o peso do fracasso individual e sobrepondo qualquer compreensão médica sobre o problema.
Responsabilidade individual domina a percepção
Lacunas de conhecimento acabam sendo preenchidas por narrativas sociais. A ideia simplificada de “comer menos e se movimentar mais” ainda permanece como uma crença dominante: quase duas em cada três pessoas que vivem com obesidade concordam que “dieta e exercício, sozinhos, podem resolver a obesidade para a maioria das pessoas”.
Muitos brasileiros ainda enxergam a obesidade principalmente como consequência de escolhas pessoais, como alimentação ou prática de exercícios. Entre os entrevistados, 65% associam a obesidade a fatores ligados ao estilo de vida, enquanto 52% consideram a condição uma doença ou problema médico.
Esse cenário aponta uma contradição: Os impactos relatados por brasileiros com obesidade vão além da saúde física. Entre os aspectos mais afetados estão hábitos alimentares e nutrição, citados por 41% como área de maior impacto, ambiente cotidiano, como atividades diárias e mobilidade, mencionado por 27% e segurança financeira, também apontada por 27% dos entrevistados.

O conhecimento sobre os riscos de saúde associados à obesidade também aparece de forma consistente entre os brasileiros. Entre aqueles que convivem com a condição, 62% associam a obesidade ao desenvolvimento de diabetes tipo 2 e 57% a doenças cardíacas. Problemas articulares são mencionados por 52%, enquanto 50% citam doença hepática gordurosa.
A apneia do sono aparece para 43% dos entrevistados e o AVC para 41%. Já a relação com alguns tipos de câncer é percebida por 22%. Entre pessoas sem obesidade, os percentuais são ligeiramente menores em alguns casos, mas seguem uma tendência semelhante, com 55% citando diabetes tipo 2, 56% doenças cardíacas e 47% problemas articulares.
Medidas para controlar a condição
Entre pessoas com obesidade no Brasil, 94% afirmam que já receberam aconselhamento ou consideraram perder peso em algum momento. Dentro desse grupo, 76% relatam ter recebido orientação nos últimos 12 meses, enquanto 18% dizem que isso ocorreu há mais tempo. Apenas 5% afirmam nunca ter recebido orientação sobre o tema.
O contato com profissionais de saúde aparece como uma das principais medidas. No último ano, 55% das pessoas com obesidade conversaram ou consultaram um médico sobre seu peso. Desse total, 35% fizeram isso nos últimos três meses e 20% entre quatro e doze meses antes da pesquisa, realizada entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026. Além disso, 33% buscaram apoio psicológico para lidar com o controle de peso.
Quando o tema chega ao consultório médico, as recomendações mais frequentes seguem concentradas em mudanças de estilo de vida. 69% relatam ter sido orientados a praticar mais exercícios físicos e 63% a melhorar a alimentação. A redução de porções aparece em 42% das recomendações, enquanto 25% mencionam indicação de vitaminas ou suplementos.

No conjunto das orientações recebidas, 86% se enquadram em recomendações de estilo de vida, 46% em intervenções médicas, 37% em programas estruturados de apoio e 25% em abordagens suplementares. Paralelamente, 37% das pessoas com obesidade afirmam ter utilizado produtos de perda de peso sem prescrição médica no último ano, sendo 21% nos três meses anteriores à pesquisa e 16% entre quatro e doze meses. Já o uso de medicamentos prescritos para perda de peso foi relatado por 33% dos entrevistados.
Consequências emocionais e comportamentais
Esse cenário também se traduz em mudanças de comportamento e restrições em atividades do cotidiano. Entre pessoas com obesidade no país, 31% dizem evitar exercícios ou esportes, 26% evitam eventos sociais e 28% afirmam deixar de participar de hobbies ou atividades de lazer. O impacto se estende até mesmo à vida profissional ou educacional, com 12% afirmando evitar oportunidades de trabalho ou estudo por causa do peso.
Considerando categorias mais amplas de comportamento, 39% evitam atividades físicas de forma geral e 74% afirmam evitar algum tipo de atividade social, romântica ou de lazer. Ao mesmo tempo, 21% relatam evitar decisões relacionadas a carreira ou vida pessoal, enquanto 20% dizem não evitar nenhuma atividade por causa do peso.
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