
A APAS Show 2026 chega à sua 40ª edição consolidada como um dos principais termômetros do varejo alimentar brasileiro. Este ano, com a expectativa de reunir mais de 150 mil visitantes e mais de 900 expositores – sendo 250 internacionais, com representantes de 24 países–, o evento evidencia uma transformação estrutural no comportamento de consumo, impulsionada por três forças centrais: longevidade, bem-estar e busca por conexões mais autênticas.
O principal debate da edição não está apenas no crescimento do setor, que deve movimentar R$ 17,8 bilhões em negócios, sendo um novo recorde para o evento e alta de 7,9% em relação ao ano anterior. O foco dessa vez está na mudança no perfil do consumidor brasileiro.
Durante a coletiva, os executivos da Apas Show apontaram que o Brasil vive uma transição demográfica acelerada. Em dez anos, 21,5% da população será composta por pessoas acima de 60 anos. Em 2060, esse grupo representará 34% dos brasileiros.
A chamada economia prateada aparece como um dos principais vetores de transformação do consumo. Segundo dados da Scanntech, a renda média da população 60+ já é 13% superior à média geral do país, enquanto a participação desse público na renda nacional deve crescer 33% na próxima década.
A mudança demográfica também altera prioridades de compra. Os consumidores maduros passaram a concentrar maior participação nas vendas de produtos naturais, respondendo por 68% do faturamento da categoria, mesmo representando 59% dos shoppers desse segmento.
“As transformações do varejo acompanham passo a passo as transformações da sociedade. Isso aparece no tamanho dos corredores, no conforto térmico e na própria experiência de compra”, contou Felipe Queiroz, Economista-chefe da APAS, ao Mundo do Marketing.

Saúde deixa de ser tendência e vira rotina
A pesquisa da Scanntech em parceria com a Shopper Experience, realizada com 1.009 consumidores e apoiada na análise de mais de 15 bilhões de tickets por ano, mostra que a saúde se tornou o principal eixo de transformação do consumo alimentar. Entre os consumidores que mudaram hábitos de compra no último ano, 64% afirmam ter passado a consumir produtos mais saudáveis.
Esses dados superam mudanças relacionadas a preço, praticidade ou sustentabilidade. Para Felipe, as redes sociais também passaram a desempenhar papel decisivo nesse avanço, acelerando a disseminação de novos hábitos alimentares e influenciando diretamente nas decisões de compra. A própria APAS Show reflete esse cenário. Nos últimos anos, categorias ligadas a FLV, proteínas, suplementação e saudabilidade passaram a ocupar espaços cada vez maiores dentro da feira.
“Não é uma tendência concentrada nos grandes centros. A saudabilidade já é um movimento consolidado. A APAS Show é praticamente um retrato dessa mudança estrutural da sociedade”, disse.

O levantamento também mostra que o cuidado com a saúde já faz parte da rotina do consumidor brasileiro. Segundo a pesquisa, 77% afirmam priorizar boa qualidade de sono, 72% praticam atividade física regularmente e 59% realizam check-ups médicos frequentes, indicando que o bem-estar deixou de ser associado apenas à alimentação e passou a envolver uma visão mais ampla de qualidade de vida. Na prática, essa transformação já impacta diretamente o carrinho de compras.
“O varejo tem que ser equilibrado no processo de adaptação à demanda do consumidor. Alguns supermercadistas poderiam até pensar e causar a ideia de que o supermercado escolhe o que vende, não, é o consumidor que escolhe o que compra. À medida que isso acontece, ou ele oferta o produto ou ele perderá mercado, afirmou.
Menos açúcar, mais proteína e crescimento dos alimentos funcionais
Os dados apresentados durante a coletiva mostram uma forte migração do consumo para categorias associadas à funcionalidade alimentar. Mais da metade dos consumidores afirmam ter reduzido o consumo de açúcar e doces, enquanto 49% aumentaram a ingestão de proteínas. O crescimento aparece tanto no comportamento declarado quanto nas vendas do varejo.

Produtos como creatina, iogurtes proteicos, leites proteicos e itens pré-treino registram forte expansão no varejo alimentar. Segundo os dados apresentados na APAS Show 2026, as vendas de creatina cresceram 117%, enquanto os iogurtes proteicos avançaram 84% no último ano, acompanhando uma lógica de alimentação voltada à performance, energia e bem-estar.
O avanço das proteínas também aparece nas categorias frescas. Ovos cresceram 16% em volume, frutas avançaram 8%, legumes 7% e carnes mantiveram alta consistente, enquanto indulgências, ultraprocessados e categorias ricas em carboidratos passaram a perder participação nas cestas de consumo.
Outro destaque foi o crescimento das frutas congeladas, categoria que mais que triplicou de tamanho nos últimos anos, acumulando alta superior a 220%. Esses números acompanham os novos hábitos ligados à praticidade e saudabilidade, impulsionados principalmente pelo consumo de shakes proteicos, smoothies e sobremesas funcionais.

Canetas emagrecedoras aceleram discussão, mas não explicam mudança total
A pesquisa apresentada durante a APAS Show 2026 também analisou os impactos das chamadas canetas emagrecedoras no varejo alimentar. Embora as buscas relacionadas a medicamentos GLP-1 tenham crescido 94% em 2025, a penetração desses produtos ainda permanece relativamente baixa, atingindo cerca de 6% da população brasileira.
Os dados mostram que o avanço da saudabilidade não pode ser explicado apenas pelo crescimento desses medicamentos. Segundo o levantamento, 64% dos consumidores afirmam ter aumentado o consumo de alimentos saudáveis no último ano, enquanto 53% reduziram açúcar e doces e 49% passaram a consumir mais proteínas.
A mudança também aparece nos hábitos cotidianos. Cerca de 77% dos entrevistados afirmam priorizar qualidade do sono, 72% praticam atividade física regularmente e 59% realizam check-ups médicos frequentes, indicando que o bem-estar passou a ser percebido de forma mais ampla e integrada à rotina.
Outro dado relevante aponta que 41% dos consumidores dizem buscar alimentos que entreguem benefícios funcionais além da nutrição básica, como ganho de energia, saciedade, recuperação muscular e melhora da disposição.
Para Felipe, o avanço da saudabilidade está ligado a uma transformação cultural mais profunda, associada à longevidade, ao envelhecimento ativo e à busca por qualidade de vida. “Não é um movimento restrito aos medicamentos. Existe uma mudança estrutural na sociedade, impulsionada pela busca por bem-estar e pela influência crescente das redes sociais nos hábitos de consumo”, afirmou.

Inflação pressiona, mas competitividade ajuda a equilibrar preços
Outro ponto debatido durante a coletiva foi o desafio de equilibrar saudabilidade, conveniência e preço em um cenário ainda pressionado pela inflação e pela mudança no padrão de consumo. O preço continua sendo decisivo para o consumidor brasileiro. Cerca de 78% dos entrevistados afirmam comparar preços antes da compra, enquanto 71% dizem substituir marcas tradicionais por alternativas mais acessíveis quando percebem aumento relevante nos valores.
Ao mesmo tempo, o estudo aponta que a busca por saudabilidade não perdeu força mesmo diante da pressão econômica. Entre os consumidores entrevistados, 64% afirmam ter aumentado o consumo de produtos saudáveis no último ano, enquanto 58% disseram estar dispostos a pagar mais por alimentos que entreguem benefícios relacionados à saúde, bem-estar e qualidade de vida.
Segundo Felipe, a inflação recente está ligada principalmente a fatores conjunturais e externos, e não a uma fragilidade estrutural da produção nacional. “O Brasil é o maior produtor mundial de alimentos, mas sofre impactos de fatores externos. A nossa expectativa é que nós tenhamos uma inflação na casa de 4,5%, 4,6%, e isso inegavelmente impactará”, explicou.
A percepção apresentada durante a coletiva é que eventos internacionais, oscilações cambiais e conflitos geopolíticos seguem pressionando cadeias produtivas e custos logísticos, afetando diretamente os preços no varejo alimentar. Apesar disso, Felipe avalia que a alta competitividade do setor supermercadista ajuda a limitar os repasses mais agressivos ao consumidor.
“O setor, ele é altamente competitivo e à medida que amplia a competição, consequentemente, o consumidor tem uma tendência natural a fazer um melhor negócio, o problema é se o setor fosse monopolizado, aí não teria como equilibrar os preços, mas o que estamos observando é outro processo”, concluiu.
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