
Depois de mais de duas décadas em posições de liderança, aquele momento me atravessou de um jeito bonito. Passei grande parte da minha vida construindo uma carreira intensa em multinacionais como GE, Whirlpool e Alpargatas, liderando marcas que fazem parte da memória afetiva de milhões de brasileiros, como Havaianas, Brastemp e Consul.
Foram anos de transformação de negócios, desenvolvimento de pessoas, construção de marcas e decisões de alta complexidade. Anos de crescimento, potência e muito orgulho. Ao mesmo tempo, como acontece com muitos líderes, também vivi a intensidade de sustentar múltiplos papéis simultaneamente.
Executiva. Líder. Mãe. Mulher.

A alta performance nos ensina rapidamente a entregar, resolver, proteger, antecipar. E, aos poucos, vamos nos acostumando a operar no automático, sem perceber o quanto deixamos de nos escutar com profundidade.
Minha pausa não veio por falta de paixão pelo trabalho. Muito pelo contrário. Eu vivia um momento importante da carreira, em uma empresa pela qual tenho enorme admiração e gratidão. Mas percebi que queria abrir espaço para refletir com mais clareza sobre os próximos ciclos da minha vida e da minha liderança.
Escolhi fazer uma pausa consciente por alguns meses. Não como ruptura. Nem como fuga. Mas como um espaço intencional de reconexão, aprendizado e expansão de repertório.
E foi assim que Bali apareceu na minha vida. Lá, percebi o quanto presença muda nossa forma de enxergar o mundo. Quando estamos verdadeiramente presentes, as coisas voltam a ganhar textura.
O vento deixa de ser detalhe. O silêncio deixa de incomodar. O pôr do sol deixa de ser apenas cenário.
E talvez o mais curioso tenha sido perceber que não havia nada extraordinário acontecendo. Mas havia vida acontecendo inteira naquele instante.
A alta performance nos ensina a acelerar. Mas liderança também exige capacidade de escuta, clareza e consciência. Durante esse período, me permiti experimentar o desconforto de ser iniciante novamente.
Viajar sozinha. Explorar novos lugares. Viver experiências sem a necessidade de controlar tudo ou transformar cada instante em produtividade.

Passei anos desenvolvendo competências, liderando times e tomando decisões relevantes. Mas reaprender a olhar para o novo com curiosidade talvez tenha sido uma das experiências mais transformadoras da minha vida recente.
Essa pausa também reforçou algo em que acredito cada vez mais: bem-estar não é um tema periférico dentro das organizações. Ele impacta diretamente criatividade, qualidade das relações, tomada de decisão, capacidade de adaptação e construção de culturas saudáveis.
Líderes emocionalmente desconectados podem sustentar crescimento por algum tempo, mas dificilmente sustentam evolução consistente.
Hoje entendo que minha pausa não foi sobre desacelerar a ambição. Foi sobre ampliar consciência. Sobre voltar a me escutar com presença em meio a uma vida construída em movimento constante.
Não acredito que todo mundo precise sair do trabalho ou viajar para Bali para viver isso. Mas acredito profundamente que existe algo perigoso em passar anos sem criar espaço para reflexão. Porque coragem não é apenas continuar.
Às vezes, coragem também é pausar por um instante para garantir que o caminho ainda faça sentido. E talvez essa seja uma das conversas mais importantes da liderança contemporânea.
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