
“Quando você possui um produto que só se viabiliza gerando externalidades para a sociedade, em uma sociedade cada vez mais preocupada com sustentabilidade, esse é um produto inviável — e não deveria existir.”
Essa foi uma provocação que ouvi em um fórum mundial sobre economia circular, realizado em São Paulo em 2025. Desde então, ela me acompanha porque ronda uma questão que ganha relevância à medida que consumidores, empresas e governos ampliam suas expectativas sobre desenvolvimento sustentável.
Quando um produto é criado, normalmente buscamos entregar valor ao menor custo possível, com eficiência e competitividade. Essa lógica faz parte do funcionamento dos mercados e é algo fundamental para inovar. A questão é que, muitas vezes, essa análise considera apenas uma parte da equação. Aspectos sociais e ambientais acabam ficando em segundo plano, não porque deixem de existir, mas porque nem sempre são incorporados à tomada de decisão.
É nesse ponto que entram as chamadas externalidades: os impactos que permanecem presentes ao longo do ciclo de vida de um produto, mas que nem sempre aparecem na conta de quem o desenvolve ou consome. Durante muito tempo, muitas soluções foram consideradas competitivas justamente porque esses fatores ficavam fora da análise. Hoje, porém, essa realidade começa a mudar.

Um exemplo pode ser observado na indústria de produtos de limpeza. Em busca de ganhos de eficiência, algumas empresas passaram a substituir embalagens tradicionais de polietileno por PET transparente. Em determinadas aplicações, entretanto, a proteção do produto exige embalagens opacas, o que leva à utilização de PET colorido para bloquear a passagem de luz.
O desafio é que o mercado de reciclagem encontra dificuldades para absorver determinados tipos de PET colorido, especialmente os opacos. E, como consequência, parte deste material pode perder valor para a reciclagem e acabar sendo destinada a aterros sanitários. Nesse cenário, uma decisão tomada para otimizar desempenho ou custo inicial pode gerar impactos posteriores que nem sempre são considerados quando a embalagem é concebida.
O mesmo raciocínio ajuda a explicar o debate atual sobre a incorporação de conteúdo reciclado. Depois de décadas de otimização focada em reduzir peso, simplificar estruturas e ter mais eficiência produtiva, muitas embalagens atingiram níveis elevados de competitividade econômica. Agora, além dos compromissos voluntários assumidos pelas empresas, a evolução da regulação também vem acelerando essa transformação. Um exemplo é o Decreto Federal nº 12.688/2025, que fortalece o sistema de logística reversa no Brasil e estabelece metas progressivas para recuperar materiais e ampliar a circularidade. Na prática, a gestão do pós-consumo deixa de ser apenas uma aspiração de sustentabilidade e passa a ocupar um papel cada vez mais relevante nas estratégias empresariais.

Nesse contexto, materiais reciclados podem, em determinados momentos, apresentar custos superiores aos materiais virgens. Isso ocorre porque sua cadeia envolve etapas adicionais de coleta, triagem, logística reversa, processamento, rastreabilidade e controle de qualidade. São atividades que agregam valor ao sistema como um todo e contribuem para a circularidade dos materiais.
Por isso, talvez a pergunta mais relevante não seja porque o reciclado pode custar mais em algumas situações, mas porque esses elementos ficaram fora da equação durante tanto tempo. À medida que regulações, compromissos corporativos e expectativas da sociedade evoluem, essas variáveis passam a ser incorporadas de forma mais consistente às decisões de negócio.
Essa mudança exige uma visão mais ampla sobre competitividade. Não se trata apenas de avaliar o custo imediato de uma solução, mas de compreender seus impactos ao longo de todo o ciclo de vida. Em alguns casos, isso significará redesenhar produtos, rever embalagens ou repensar processos que fizeram sentido em outro contexto, mas que precisam evoluir para responder aos desafios atuais.
No fim, a discussão sobre viabilidade está se tornando mais abrangente. Produtos verdadeiramente competitivos serão aqueles capazes de gerar valor não apenas no momento da venda, mas ao longo de toda a sua trajetória. E, em um cenário cada vez mais orientado pela circularidade, considerar os impactos econômicos, sociais e ambientais das decisões deixa de ser um diferencial para se tornar parte da própria lógica de criação de valor.
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