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Quanto mais o Marketing quer participar do negócio, menos pode falar apenas de Marketing

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Quanto mais o Marketing quer participar do negócio, menos pode falar apenas de Marketing

Durante muito tempo, a carreira de Marketing foi construída a partir do domínio de competências como marca, comunicação, mídia, pesquisa, consumidor e criatividade. Todas continuam importantes, mas já não são suficientes. A transformação digital, o avanço dos dados e a inteligência artificial estão mudando a forma como produzimos, pesquisamos, tomamos decisões e nos relacionamos com marcas.

Nesse cenário, acredito que uma das maiores transformações da nossa profissão não esteja acontecendo dentro do Marketing, mas nas suas fronteiras. Quanto mais o Marketing quer participar das decisões estratégicas de uma empresa, menos pode falar apenas de Marketing.

Hoje, considero cada vez mais difícil construir uma carreira relevante na área sem conhecer margem, receita, estrutura de custos, unit economics ou P&L. Não basta saber quanto uma campanha alcançou. É preciso entender o que estamos tentando fazer crescer, quais clientes são mais relevantes para a empresa, onde existe margem e recorrência, qual é o custo de conquistar um cliente e quanto valor ele pode gerar ao longo do relacionamento.

Não significa que o CMO precise se transformar no CFO. Significa que precisa entender suficientemente bem o negócio para tomar melhores decisões. Porque estratégia de Marketing sem estratégia de negócio é apenas atividade.


Essa visão também muda a maneira como enxergamos produto, experiência e comunicação. Uma campanha pode prometer simplicidade, mas, se contratar o produto for complicado, a marca não é simples. A comunicação pode dizer que a empresa é obcecada pelo cliente, mas, se resolver um problema exigir cinco contatos diferentes, essa promessa desaparece.

Produto, atendimento, tecnologia, preço e comportamento das pessoas também comunicam. Marketing não começa quando o produto está pronto. Precisa estar presente quando estamos decidindo o que entregar, para quem e por quê.

Com tanta tecnologia disponível, existe ainda o risco de confundirmos capacidade de medir com capacidade de compreender. Nunca tivemos tantos dados, mas entender o comportamento das pessoas continua exigindo curiosidade, repertório, observação e proximidade com os clientes. Um dashboard pode mostrar que alguém abandonou uma jornada, mas não necessariamente explica a frustração ou a dúvida que provocou aquela decisão.


Marketing deveria ser uma das áreas mais obcecadas em trazer o lado de fora para dentro da empresa. Empresas naturalmente passam muito tempo olhando para dentro. Precisamos continuar olhando para fora, entendendo o que mudou no comportamento das pessoas, como as categorias estão sendo percebidas e o que os clientes fazem que ainda não aparece nos relatórios.

A inteligência artificial torna a execução mais rápida e o conhecimento mais acessível. Hoje é possível analisar milhares de comentários, pesquisar mercados, testar mensagens e produzir conteúdo em uma fração do tempo que essas atividades exigiam há poucos anos. Mas, quando todos passam a ter acesso às mesmas ferramentas, a ferramenta deixa de ser o diferencial.

O diferencial passa a ser a qualidade da pergunta, o repertório de quem pergunta, a capacidade de julgamento e a decisão sobre o que fazer com a resposta. A AI pode gerar cem caminhos. Alguém ainda precisa saber qual deles vale seguir. Eficiência está ficando mais acessível. Critério, não.

Ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil produzir conteúdo, lançar produtos ou copiar funcionalidades. Quando produtos começam a se parecer, preço, distribuição, experiência, reputação e confiança ganham peso. Marca deixa de ser apenas aquilo que diferencia visualmente uma empresa e passa a funcionar como um atalho mental. É nesse espaço que se transforma em ativo econômico. Não substitui produto, potencializa produto. Não substitui resultado, ajuda a criar as condições para que ele aconteça.

Também acredito que, quanto mais digital fica o mundo, mais valioso se torna o acesso humano de qualidade. Tecnologia aumenta nossa capacidade de escala. Relações aumentam nossa capacidade de criar confiança. As duas coisas não são contraditórias, e as melhores estratégias provavelmente combinarão cada vez mais ambas.

Por isso, vejo o papel do CMO menos como o especialista responsável por uma disciplina e mais como alguém capaz de conectar diferentes dimensões de um negócio. Marca e resultado. Dados e comportamento. Tecnologia e sensibilidade. Produto e percepção. Reputação e crescimento.

O trabalho não é dominar todas essas áreas melhor do que seus especialistas. É entender como elas se conectam e garantir que estejam apontando para a mesma direção.

Isso exige uma mudança também na formação dos profissionais de Marketing. Precisamos continuar estudando consumidores, comunicação e marcas, mas também finanças, tecnologia, produto, inteligência artificial, vendas, liderança e estratégia. Precisamos conhecer a operação, entender o produto, ler o P&L, conversar com quem vende, ouvir quem atende e acompanhar o que acontece depois da compra.


Passei boa parte da minha carreira construindo marcas. Quanto mais experiência acumulo, mais acredito que construir uma marca forte exige entender muito mais do que marca. Exige entender o negócio que existe por trás dela.

Marketing não deveria existir para fazer uma empresa parecer melhor. Deveria ajudar a empresa a ser mais relevante para as pessoas que pretende servir e transformar essa relevância em valor para o negócio.

Talvez o próximo grande salto da nossa profissão não seja conquistar mais espaço dentro das empresas, mas ampliar nossa capacidade de compreender a empresa inteira. Porque, quanto mais o Marketing participar das decisões de negócio, menos falará apenas de Marketing.

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Marcela Rezende

Marcela Rezende

CMO do Stark Bank

Marcela Rezende é CMO, Diretora de Marketing e Relações Institucionais e sócia do Stark Bank. Executiva de Marketing e Negócios com mais de 20 anos de experiência na construção e no crescimento de marcas e negócios no Brasil e no exterior, passou por empresas como L’Oréal, Bacardi, Alpargatas e MadeiraMadeira, liderando estratégias de marca, crescimento e transformação de negócios. Atualmente, atua no ecossistema de tecnologia e serviços financeiros. Também é mentora, conselheira e investidora-anjo. É formada pela ESPM e possui pós-graduação em Liderança, Administração e Gestão Empresarial por Harvard.

AUTOR

Marcela Rezende

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Marcela Rezende é CMO, Diretora de Marketing e Relações Institucionais e sócia do Stark Bank. Executiva de Marketing e Negócios com mais de 20 anos de experiência na construção e no crescimento de marcas e negócios no Brasil e no exterior, passou por empresas como L’Oréal, Bacardi, Alpargatas e MadeiraMadeira, liderando estratégias de marca, crescimento e transformação de negócios. Atualmente, atua no ecossistema de tecnologia e serviços financeiros. Também é mentora, conselheira e investidora-anjo. É formada pela ESPM e possui pós-graduação em Liderança, Administração e Gestão Empresarial por Harvard.

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