A América Latina vive um momento decisivo diante do avanço acelerado da Inteligência Artificial. Apresentado no Fórum Econômico Mundial, em Davos, o relatório “Latin America in the Intelligent Age: A New Path for Growth” traça um diagnóstico profundo sobre a competitividade da região, identifica entraves históricos à produtividade e propõe um roteiro estratégico para transformar tecnologia em crescimento sustentável, inclusivo e orientado às pessoas.
O estudo, produzido em parceria com a McKinsey, aponta que a IA pode elevar a produtividade regional entre 1,9% e 2,3% ao ano, gerando um impacto econômico adicional estimado entre US$ 1,1 trilhão e US$ 1,7 trilhão anualmente.
O documento posiciona a IA como vetor central de uma nova agenda de desenvolvimento, capaz de destravar eficiência, competitividade e sofisticação produtiva em economias historicamente marcadas por baixo crescimento e desigualdades estruturais. Isso porque nas últimas duas décadas, a América Latina apresentou um dos piores desempenhos globais em produtividade, com crescimento médio anual de apenas 0,4%. Esse cenário compromete a competitividade regional, limita ganhos sociais e reduz a capacidade de inserção em cadeias globais de valor.

A IA surge como catalisador de uma virada estrutural. Ao automatizar processos, apoiar decisões estratégicas e ampliar a capacidade analítica das organizações, a tecnologia pode impulsionar ganhos expressivos em setores-chave como agricultura, mineração, energia, indústria, serviços financeiros, varejo e saúde.
Potencial de crescimento
Cerca de 60% do valor potencial virá de soluções de IA analítica, enquanto a IA generativa pode adicionar entre US$ 500 bilhões e US$ 700 bilhões adicionais por ano. Casos já em curso na região reforçam esse potencial: o uso de drones e algoritmos preditivos na agricultura do Brasil, Argentina e Uruguai; a aplicação de IA na mineração chilena para otimização operacional e segurança; e soluções avançadas em logística, serviços financeiros e energia renovável mostram que a tecnologia já começa a redefinir modelos produtivos.
Apesar do avanço no uso de IA, o relatório alerta que a maior parte das organizações latino-americanas ainda se encontra em estágios iniciais de adoção. Muitas iniciativas permanecem restritas a pilotos e provas de conceito, sem escala suficiente para gerar impacto econômico relevante.

Entre os principais entraves estão a escassez de talentos especializados, lacunas em infraestrutura digital, limitações regulatórias, baixa qualidade e integração de dados, além de déficits históricos em educação técnica e científica. O estudo destaca ainda que superar essas barreiras exige não apenas investimento em tecnologia, mas também transformação cultural, novos modelos de governança, políticas públicas coordenadas e estratégias corporativas mais ousadas.
O Brasil aparece como protagonista regional, combinando elevada abertura da população às novas tecnologias, matriz energética favorável à expansão de data centers e um ecossistema crescente de startups e inovação. Ainda assim, o país compartilha com seus vizinhos o desafio estrutural de converter adoção tecnológica em produtividade sistêmica e crescimento inclusivo.
Um roadmap para a competitividade
O relatório propõe uma agenda prática composta por dez ações estratégicas, organizadas em um roadmap regional para acelerar a competitividade da América Latina na Era Inteligente. Entre os eixos centrais estão: desenvolvimento massivo de talentos digitais, modernização da infraestrutura tecnológica, estímulo à inovação empresarial, criação de marcos regulatórios ágeis, fortalecimento da cooperação público-privada e integração regional.

A lógica é de que apenas um esforço coordenado permitirá que a região supere sua fragmentação histórica e construa escala suficiente para competir globalmente. A proposta inclui ainda a adoção de uma abordagem centrada nas pessoas, garantindo que os ganhos de produtividade se traduzam em geração de empregos qualificados, inclusão social e desenvolvimento sustentável.
De acordo com os líderes reunidos em Davos, a Inteligência Artificial não é apenas uma ferramenta de eficiência, mas um vetor estratégico capaz de reposicionar a América Latina na economia global. O desafio, agora, é transformar potencial em realidade, convertendo tecnologia em crescimento, competitividade e impacto social duradouro.
Confiança, ética e governança: a base para escalar a IA com legitimidade
O relatório enfatiza que não há crescimento sustentável baseado em IA sem confiança social, governança sólida e princípios éticos claros. Em uma região marcada por desigualdades, informalidade econômica e fragilidade institucional, a adoção acelerada de tecnologias inteligentes precisa vir acompanhada de marcos que garantam transparência, proteção de dados, segurança cibernética e uso responsável dos algoritmos.

A construção dessa confiança passa por três pilares centrais: governança de dados, com regras claras sobre coleta, armazenamento, uso e compartilhamento de informações; regulação equilibrada, capaz de proteger cidadãos sem sufocar a inovação; IA responsável, com modelos explicáveis, mitigação de vieses e mecanismos de auditoria contínua.
Sem esses fundamentos, o relatório aponta que o avanço tecnológico pode ampliar assimetrias sociais, reforçar vieses históricos e comprometer a credibilidade das empresas e dos governos. Em contrapartida, organizações que adotarem desde cedo práticas sólidas de governança e ética tendem a conquistar vantagem competitiva, fortalecer reputação e acelerar a adoção de soluções inteligentes.
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