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O que a persona não responde: como o estado decisório do consumidor define a estratégia de conteúdo

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Tempo de Leitura 13 min

O que a persona não responde: como o estado decisório do consumidor define a estratégia de conteúdo

Uma persona bem construída descreve uma pessoa de forma convincente. Tem nome, idade, renda, estrutura familiar, canais preferidos, hábitos de consumo de conteúdo, frustrações e aspirações genéricas. O documento passa pela aprovação do cliente, fica salvo na pasta de planejamento e é citado nas apresentações de campanha como prova de que o trabalho foi feito com rigor. 

O problema aparece em seguida, quando alguém precisa decidir o que escrever, qual argumento usar, em qual canal publicar, com qual frequência e em qual tom. Nesse momento, a persona não responde. Não porque esteja errada, mas porque foi construída para responder a uma pergunta diferente daquela que a estratégia de comunicação efetivamente precisa.


O modelo de persona mais difundido no mercado foi desenhado para descrever quem é o consumidor. Ele captura identidade: dados demográficos, perfil psicográfico, comportamentos gerais de compra e consumo de mídia. Esse retrato tem utilidade real para segmentação e para evitar que equipes trabalhem com suposições divergentes sobre o público. Mas ele para justamente onde a estratégia de conteúdo começa a precisar de orientação. Uma persona convencional não responde qual trabalho concreto a pessoa está tentando realizar com aquela compra. 

Não mapeia os riscos que ela percebe e que funcionam como freio ativo à ação, travando uma decisão que em termos racionais já deveria ter acontecido. Não considera o momento específico em que o problema se torna urgente o suficiente para mover alguém da pesquisa passiva para a intenção real. Não distingue se a tomada de decisão daquela persona específica é predominantemente racional, emocional ou habitual, o que determina diretamente qual tipo de argumento vai ressoar. O resultado prático é que equipes produzem conteúdo coerente com o perfil do consumidor, mas desconectado do estado em que ele se encontra quando a decisão começa a se formar.

Essa lacuna ficou evidente ao longo de anos de avaliação de trabalhos de banca em cursos de pós-graduação e MBA em marketing e branding. O padrão se repete com consistência: trabalhos que entregam personas detalhadas, mas que não conseguem sustentar as escolhas de conteúdo, canal e argumento feitas na sequência. Quando perguntados por que escolheram determinado tom ou determinada plataforma, a persona disponível não fornece a resposta. 


Ela descreve quem é o consumidor, não o que está acontecendo com ele quando o produto ou serviço deveria aparecer. A aplicação em projetos de branding digital ao longo de décadas confirmou o mesmo padrão no mercado: o documento de persona existe, é extenso, mas a equipe criativa e editorial acaba tomando decisões por intuição porque o documento não endereça as perguntas que importam para a execução.

O Persona Canvas é um framework de mapeamento desenvolvido para completar o que o perfil convencional não captura. Ele organiza o consumidor em três dimensões interdependentes, que correspondem a três perguntas distintas: o que move essa pessoa (Motivação), o que vai determinar se ela age ou não (Decisão) e onde e como ela está presente nesse processo (Contexto). Essas três camadas são estruturadas em blocos específicos, cada um com uma função definida dentro da estratégia de comunicação.


Persona Canvas por Daniella Borges

Persona Canvas | por Daniella Borges

A camada de Motivação é a base do canvas e concentra quatro elementos. O primeiro é Necessidade/Desejo, que registra o estado interno que ativa o processo de busca. As necessidades que movem o consumidor em direção a um produto ou serviço podem ser de dois tipos com implicações comunicacionais distintas. As necessidades utilitárias são instrumentais: o produto é um meio para resolver um problema concreto e mensurável. Quem busca um software de gestão porque o controle financeiro está falhando, ou um serviço de logística porque o prazo de entrega virou gargalo, está operando com uma necessidade utilitária. 

O argumento que funciona aqui precisa demonstrar eficácia, confiabilidade e resultado prático verificável, porque o critério de escolha é objetivo. As necessidades hedônicas têm uma lógica diferente: o consumo em si é o objetivo, e a satisfação vem da experiência, do que a escolha expressa sobre a identidade do consumidor ou do prazer que ela proporciona. Uma janta em restaurante de alta gastronomia, uma viagem sem roteiro fixo, um tênis de edição limitada: nesses casos, o argumento precisa operar no registro da experiência desejada ou da identidade a que o consumidor quer pertencer, porque o critério de escolha é subjetivo. 


Quando o bloco de Necessidade/Desejo registra qual das duas dimensões predomina naquela relação entre persona e categoria, ele cria um critério de triagem para o tipo de argumento que vai funcionar na comunicação. Uma marca que usa argumento de eficiência funcional para uma compra movida por desejo hedônico acerta o canal, mas erra o que o consumidor está de fato tentando resolver com aquela compra.

O segundo elemento da camada de Motivação é a Dor, que descreve especificamente o que está ativamente incomodando no estado atual do consumidor. A dor já está presente, é sentida quando o consumidor encontra a comunicação, e uma mensagem que a nomeia com precisão gera reconhecimento imediato, porque o consumidor identifica que aquela marca entende o problema que ele está vivendo, antes de qualquer argumento sobre o produto. 

O terceiro elemento é o Problema, que identifica o gatilho específico que transformou uma insatisfação latente em busca ativa. Pessoas convivem com insatisfações por meses ou anos sem agir. O que converte essa insatisfação em movimento é um evento concreto: uma comparação inesperada, uma limitação que se tornou insuportável, uma oportunidade que criou urgência onde antes havia resignação. Identificar esse gatilho define em que momento a comunicação precisa estar presente para interceptar o consumidor quando ele está efetivamente em movimento.


O quarto elemento da camada de Motivação é o Job to be Done, e é o bloco que com maior frequência contradiz o que a marca quer comunicar. O conceito, desenvolvido por Clayton Christensen e seus colaboradores na Harvard Business School, parte de uma premissa operacional: consumidores contratam produtos e serviços para realizar trabalhos específicos em suas vidas, e essa contratação é determinada pelas circunstâncias em que o consumidor se encontra, não pelo perfil demográfico a que pertence. 

Dois consumidores com o mesmo perfil, mesma faixa etária, renda, cidade e escolaridade, podem contratar o mesmo produto para jobs completamente diferentes porque as circunstâncias que os movem são distintas. Segmentar pelo perfil captura quem compra, mas não explica o porquê compra naquelas circunstâncias específicas, e a comunicação construída apenas sobre o perfil frequentemente erra a motivação que move a compra. 


Cada job tem três dimensões que precisam ser mapeadas: a funcional (o que a pessoa precisa fazer concretamente), a social (como ela quer ser percebida por outros através dessa escolha) e a emocional (como ela quer se sentir depois de fazer a escolha). Essas três dimensões coexistem com pesos diferentes dependendo do consumidor e do contexto de compra, e a comunicação que endereça apenas uma delas vai ressoar para uma fatia do público e passar em branco para outra. 

A Southern New Hampshire University identificou que o job dos seus alunos adultos era retomar a vida profissional depois de interrupções, com flexibilidade e sem o custo de mobilidade de um modelo universitário tradicional, não obter um diploma por prestígio acadêmico. Reformular a proposta de valor e a comunicação a partir desse job específico resultou em crescimento de 34% ao ano por vários anos consecutivos. O mismatch entre o job real e o argumento central da comunicação é um dos desperdícios mais custosos e menos visíveis na estratégia de conteúdo.

A camada de Decisão mapeia o que vai determinar se a intenção vira ação e qual tipo de comunicação vai funcionar nesse momento crítico. O bloco de Riscos é o mais subestimado das ferramentas de planejamento de conteúdo. Existem cinco tipos de risco que o consumidor percebe antes de agir: o risco monetário, que é o medo de gastar errado; o risco funcional, que é o medo de que o produto não entregue o que promete; o risco físico, que é a preocupação com segurança ou saúde; o risco social, que é o medo de julgamento de terceiros pela escolha feita; e o risco psicológico, que é a dissonância que pode surgir depois da compra. 


Cada um desses riscos é um ponto de atrito ativo que pode paralisar a decisão mesmo quando a necessidade é clara e o produto é adequado. A comunicação que não identifica os riscos específicos daquela persona naquela categoria investe argumentos no lugar errado: falar de qualidade para quem está travado pelo risco social, ou falar de pertencimento para quem está travado pelo risco funcional, são erros que o perfil convencional não permite identificar.

O bloco de Tomada de Decisão registra o tipo de processo decisório predominante dessa persona específica nessa categoria: racional, emocional ou habitual. A distinção tem implicações diretas para o formato e o argumento do conteúdo. Quando a decisão é racional, o consumidor está comparando ativamente alternativas, avaliando custo-benefício e construindo justificativas verificáveis para a escolha. 

O conteúdo que funciona aqui oferece informação estruturada, comparativos técnicos, garantias e provas. Quando a decisão é emocional, a escolha é mediada por como o produto faz o consumidor se sentir ou pelo que ele expressa sobre quem esse consumidor é, e o conteúdo precisa operar em um registro experiencial que gera identificação antes de gerar convicção racional. O terceiro tipo, o habitual, é o que mais frequentemente não aparece nas ferramentas de planejamento de conteúdo. 


Na decisão habitual, o consumidor não delibera: recompra automaticamente e repete o comportamento anterior sem comparar alternativas, o que é comum em categorias de alta frequência, baixo risco percebido e custo de mudança alto. Para esse consumidor, comunicação de aquisição convencional não muda comportamento porque a decisão já está tomada por padrão. 

A estratégia eficaz precisa ou de um elemento disruptivo que force uma reavaliação consciente antes que um concorrente o faça, ou de reforço consistente de identidade que solidifique o vínculo antes que outro estímulo quebre a rotina. Identificar qual dos três tipos predomina naquela relação entre persona e categoria define o ponto de entrada e a função do conteúdo que vai ser produzido.

O bloco de Momento identifica em que ponto o consumidor está quando a comunicação precisa agir, e esse bloco exige ser lido em três camadas complementares. A primeira é a posição na jornada do consumidor: ele pode estar em reconhecimento do problema (percebendo a insatisfação mas ainda sem busca ativa), em consideração ativa (consultando fontes, comparando alternativas, formando preferência) ou em decisão (com as opções já reduzidas e buscando o argumento que confirme ou desfaça a escolha). 


Cada estágio exige conteúdo com função diferente, e produzir o conteúdo certo para o estágio errado é desperdício direto de verba e atenção. A segunda camada são os micro-momentos, uma granularização do comportamento identificada pelo Google a partir do uso de smartphones: instâncias de intenção imediata que ocorrem quando o consumidor acessa o dispositivo para agir sobre uma necessidade que surgiu naquele instante. Esses momentos se organizam em quatro tipos: "quero saber" (exploração e pesquisa, sem intenção declarada de compra), "quero ir" (busca por local, ponto de venda ou experiência física), "quero fazer" (busca por instrução para realizar uma tarefa) e "quero comprar" (intenção declarada, buscando o argumento ou a oferta que fecha a decisão). 

Uma marca que produz conteúdo exclusivamente para o momento "quero comprar" fica invisível para o consumidor nos estágios anteriores da formação de preferência, quando a influência ainda é possível e menos disputada. A terceira camada é o Zero Moment of Truth (ZMOT), conceito cunhado pelo Google em 2011 para descrever uma transformação estrutural no comportamento de compra. 


No modelo anterior, o ciclo era simples: um estímulo externo, anúncio, recomendação ou experiência, levava o consumidor ao ponto de venda, onde acontecia o Primeiro Momento da Verdade, a escolha na prateleira. O ZMOT se instalou entre o estímulo e a prateleira: antes de chegar ao ponto de decisão, o consumidor já passou por um momento de pesquisa online que formou ou destruiu a preferência. 

Dados coletados pelo Google em 2011 mostraram que 70% dos consumidores consultavam avaliações antes de fazer uma compra e que o número médio de fontes consultadas durante o processo de decisão havia chegado a 10,4, mais que o dobro das 5,3 fontes utilizadas no ano anterior, sinalizando uma aceleração no comportamento de pesquisa que se intensificou desde então. O ZMOT não é um canal: é um momento que ocorre antes do contato com qualquer ponto de venda. A comunicação que não está presente nele entrega a formação de preferência do consumidor para outras fontes, que podem ser concorrentes, avaliações negativas ou simplesmente ausência de informação sobre a marca.

A camada de Contexto fecha o framework mapeando onde e como o consumidor está presente durante esse processo. O bloco Onde Está registra os canais e plataformas em que essa persona específica está ativa quando a decisão está se formando, o que não necessariamente coincide com as plataformas em que ela mais passa tempo em geral. 


O bloco de Padrão de Comportamento descreve os hábitos e rotinas observáveis nesse contexto, o que define como a comunicação deve se apresentar: um consumidor que pesquisa de forma apressada durante o intervalo do trabalho precisa de uma abordagem diferente de um que pesquisa com calma no fim de semana em casa.

Um exemplo concreto permite ver o canvas em funcionamento. Cláudio tem 42 anos, é engenheiro, mora em São Paulo e aparece nos relatórios de audiência de tecnologia como "homem, classe A/B, heavy user de YouTube". A persona convencional para aqui. O canvas revela que Cláudio convive há dois anos com a mesma televisão porque, embora reconheça que ela está obsoleta, dois riscos específicos travam a decisão repetidamente: o risco funcional de comprar um modelo que vai ser superado em seis meses pela próxima geração de tecnologia, e o risco monetário de gastar mal em uma categoria técnica que ele não domina. 

A necessidade é predominantemente utilitária, orientada para melhor qualidade de exibição para o catálogo de streaming que ele consome diariamente. O gatilho que transformou a insatisfação latente em busca ativa foi uma visita à casa de um amigo, onde percebeu que essa qualidade de exibição tem uma diferença significativa em relação a um equipamento de última geração. 


O job to be done tem três dimensões: a funcional é "tomar uma decisão técnica acertada em uma categoria que ele não domina", a social é "não parecer desinformado diante de colegas em conversas sobre tecnologia" e a emocional é "reduzir a ansiedade de gastar errado e se arrepender". A tomada de decisão é predominantemente racional, com viés funcional. No ZMOT, Cláudio está consultando reviews especializados, comparando especificações técnicas e lendo threads em fóruns antes de qualquer contato com o varejo, físico ou digital. 

Esse ZMOT acontece à noite, no celular, em plataformas de review e no YouTube, no micro-momento "quero saber", ainda formando opinião e coletando referências técnicas. A comunicação que vai movê-lo precisa reduzir o risco funcional com argumentos técnicos verificáveis e oferecer garantias que enderecem o risco monetário, entregues no canal e no momento em que ele está pesquisando.

O que muda na prática quando uma equipe usa o Persona Canvas é o ponto de partida das decisões editoriais e criativas. Em vez de partir do perfil para deduzir o que o consumidor provavelmente quer ouvir, a equipe parte do estado em que ele está para definir o que a comunicação precisa resolver naquele momento específico. Isso determina o formato do conteúdo, o canal prioritário, o argumento central, o tom e a frequência de exposição necessária. 

Uma estratégia de conteúdo construída sobre o canvas tem critérios objetivos para justificar cada escolha, em vez de depender de intuição ou de referência genérica ao perfil do público. O canvas não substitui a pesquisa de perfil: os dados da persona convencional continuam sendo a entrada necessária para preencher a camada de Contexto. O que ele adiciona é a dimensão que o perfil não captura: o estado interno, os freios à ação, o trabalho real e o momento em que tudo isso converge em uma janela de decisão que a comunicação precisa alcançar.

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Daniella Borges

Professora da ESPM e CEO da Butterfly Growth

AUTOR

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