
Cresce no Brasil um comportamento social marcado pela insularidade, caracterizado pelo desinteresse e pela desconfiança em relação a indivíduos com valores, origens ou visões distintas. 70% dos entrevistados no estudo Edelman Trust Barometer 2026 demonstram hesitação ou baixa disposição para confiar em pessoas com diferenças em princípios, fontes de informação ou abordagens sobre temas sociais.
Essa dinâmica se estende ao ambiente corporativo. Entre os trabalhadores brasileiros, 71% demonstram preocupação com os impactos de conflitos comerciais e tarifas sobre suas empresas, enquanto 74% temem perder o emprego em caso de recessão, ambos em níveis recordes. No cotidiano organizacional, 41% afirmam que prefeririam mudar de área a se reportar a um gestor com valores distintos, e 28% indicam menor engajamento em projetos liderados por pessoas com crenças políticas diferentes.
Entre indivíduos com perfil mais insular, a confiança se concentra em relações próximas, com destaque para a figura do próprio CEO (65% entre empregados), enquanto CEOs em geral, vizinhos e jornalistas permanecem em níveis neutros ou baixos de confiança, e autoridades governamentais seguem como as menos confiáveis.
Já os empregadores aparecem como os agentes mais bem posicionados para atuar nesse processo: 70% dos trabalhadores acreditam que têm a obrigação de reduzir divisões e fomentar a confiança, enquanto 47% consideram que essa função vem sendo cumprida de maneira efetiva.

Impacto sobre mídia e economia
Em 2026, a mídia deixa de ser percebida como não confiável e passa ao campo da neutralidade, com 52%, ao lado das ONGs, que registram 58%. O governo, por sua vez, segue como a única instituição classificada como não confiável, com 45%. No índice geral de confiança — que reúne empresas, governo, mídia e ONGs — o país permanece em nível neutro, com 56 pontos. Empregadores (80% entre os empregados) e empresas (67% entre a população geral) permanecem como as instituições mais confiáveis.
A preocupação com desinformação também se intensifica, com 69% dos brasileiros receosos de que países estrangeiros disseminem informações falsas para ampliar divisões internas. Ao mesmo tempo, a exposição a visões políticas distintas diminui: apenas 44% afirmam interagir semanalmente com fontes de posicionamento diferente, uma queda de oito pontos em relação ao ano anterior.

O fortalecimento da insularidade também se reflete no ambiente econômico, impulsionando o nacionalismo e criando barreiras adicionais para a atuação de multinacionais. Empresas nacionais apresentam um nível de confiança sete pontos superior ao de companhias estrangeiras. Além disso, 25% dos brasileiros afirmam apoiar a redução da presença de empresas estrangeiras no país, mesmo diante da possibilidade de aumento de preços.
Como resposta a esse cenário, o estudo introduz o conceito de mediação de confiança, definido como um conjunto de práticas voltadas à construção de relações entre grupos com visões divergentes. No Brasil, 79% dos entrevistados atribuem ao governo a responsabilidade por esse papel, embora apenas 30% avaliem que ele o desempenha de forma eficaz.
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