
O comprometimento da renda com apostas esportivas apresenta reflexos semelhantes aos observados entre consumidores que possuem crédito consignado. É o que aponta um estudo realizado pela Scanntech em parceria com a MindMiners, a partir de entrevistas com dois mil brasileiros, que analisou a relação entre apostas, pressão financeira e mudanças nos hábitos de compra.
Dos entrevistados, 26% afirmaram ter apostado em bets nos 12 meses anteriores à pesquisa. Dentro desse universo, 12,8% da amostra total, ou 255 pessoas, foram classificados como apostadores de risco. O grupo representa 48,9% dos 522 participantes que declararam fazer apostas digitais.
A classificação considera consumidores que utilizam pelo menos uma fonte de recursos que deveria estar destinada a outras finalidades para apostar: salário antes da separação das despesas, poupança ou reserva financeira, cartão de crédito, cheque especial ou empréstimo consignado.
A pressão sobre o orçamento aparece nas contas do mês. Entre os apostadores de risco, 84% disseram ter pago alguma conta após o vencimento nos seis meses anteriores à pesquisa. O percentual é próximo ao registrado entre pessoas que possuem empréstimo consignado, de 80%. Entre quem não aposta e também não possui consignado, a proporção cai para 48%.

O mesmo padrão aparece quando o levantamento observa a redução no volume de compras. Nos 12 meses anteriores, 78% dos apostadores de risco e 76% das pessoas com consignado afirmaram ter reduzido ou cortado a quantidade de produtos comprados. Entre aqueles que não apostam nem possuem consignado, o índice foi de 58%.
A retração também alcança categorias básicas do supermercado. Entre os apostadores de risco que reduziram compras, 25% diminuíram a quantidade ou deixaram de comprar itens como arroz, feijão, leite e óleo. Outros cortes envolveram produtos indulgentes, carnes e outras proteínas e bebidas alcoólicas, mencionados por 40%, 36% e 36% dos entrevistados, respectivamente. Produtos de limpeza foram citados por 32%, enquanto higiene e cuidados pessoais, frutas, verduras e legumes e alimentos saudáveis ou proteicos apareceram com 30%, 29% e 29%.
Origem do dinheiro indica o grau de comprometimento
O estudo aponta que o valor destinado às apostas, isoladamente, não é suficiente para dimensionar a pressão financeira. A fonte utilizada para bancar as apostas aparece como um dos principais sinais de risco, especialmente quando envolve crédito ou recursos que já deveriam estar destinados às despesas domésticas.
Entre os entrevistados que possuem crédito consignado, 46% também afirmaram apostar, proporção significativamente superior aos 26% registrados na amostra total. Entre os apostadores classificados como de risco, 24% disseram utilizar dinheiro proveniente do consignado para fazer apostas.

Apesar da proximidade nos efeitos sobre algumas decisões de consumo, apostas e crédito consignado representam compromissos financeiros de escalas diferentes. O consignado está presente em 11,5% da amostra, enquanto 26% afirmaram ter apostado nos últimos 12 meses.
Entre os apostadores que não foram classificados como de risco, o gasto médio mensal com bets é de R$ 239,00. Entre os apostadores de risco, a média chega a R$ 485,00. Já entre os entrevistados com crédito consignado, o desconto médio mensal das parcelas é de R$ 959,00.
A diferença de valores é compensada pela abrangência das apostas. Considerando toda a renda que deixa de ser direcionada ao consumo para apostas e pagamento de consignados, 57% correspondem às parcelas dos empréstimos e 43% às apostas. O estudo ressalta, porém, que parte do dinheiro obtido via consignado pode ter sido convertida em consumo adicional, enquanto outra parcela corresponde aos juros da dívida.
Endividamento amplia pressão sobre o consumo
Os dados também mostram que a dificuldade financeira não se restringe aos consumidores que apostam ou possuem crédito consignado. O estudo identifica índices relevantes de redução de consumo também entre pessoas que não estão nesses dois grupos, em um contexto mais amplo de aumento do endividamento das famílias.
Dados do Banco Central divulgados em 29 de setembro apontaram que o comprometimento da renda das famílias com dívidas chegou a 28,7% em junho, enquanto a inadimplência bancária das pessoas físicas alcançou 6% em agosto. Os dois indicadores atingiram recordes históricos. No mesmo período, 82% das famílias brasileiras estavam endividadas, segundo levantamento da CNC, maior percentual desde o início da série, em 2010.
Cabe ressaltar que as apostas de quota fixa foram proibidas no Brasil pela Medida Provisória nº 1.394, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no dia 25 de setembro de 2026. A norma determinou o fim da exploração, da oferta, da intermediação e da publicidade de bets, incluindo tanto apostas esportivas quanto jogos on-line, em ambientes físicos e virtuais. As plataformas autorizadas tiveram de encerrar as operações e retirar sites, aplicativos e campanhas do ar até 5 de outubro, dando início também ao processo de devolução dos valores mantidos pelos apostadores.
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