
Quem chega a Santa Rita do Sapucaí para o HackTown logo percebe que a cidade inteira mudou de função por cinco dias. A palestra sobre inteligência artificial acontece em uma escola, a conversa de negócios se estende para a mesa do restaurante, e o caminho entre uma atividade e outra passa por praças, casarões e ruas residenciais. Na edição de 2026, metade dos participantes estava lá pela primeira vez e 84% disseram que voltariam para uma próxima edição. O que fica não é só o conteúdo, mas a sensação de ter vivido o lugar.
Santa Rita do Sapucaí não é um cenário aleatório. Conhecida como Vale da Eletrônica, a cidade construiu ao longo de décadas uma vocação para tecnologia, com uma escola técnica de eletrônica e um instituto de telecomunicações, o Inatel, que hoje pesquisa tecnologia 6G. Ou seja, o festival nasceu de um ecossistema que já existia e já respirava inovação, e deu a esse ecossistema um palco à altura.
O mais divertido do HackTown é ver como o evento se espalha por todos os espaços. Em vez de reservar salas em um centro de eventos, o festival ocupa escolas, cafeterias, bares, restaurantes, praças, casarões históricos e até residências. Um lugar comum do dia a dia vira palco de debate sobre o futuro.

A boa sacada é como tratam a cidade como plataforma, não como cenário. Cada estabelecimento deixa de ser um fornecedor e passa a ser parte da programação. O dono da mercearia, a diretora da escola, o comerciante da praça: todos ganham um papel. Isso cria um sentimento de coautoria e faz a população, mesmo quem não trabalha na frente do computador, sentir que o evento também é dela.
Em 2025, o HackTown ocupou mais de 100 espaços da cidade e reuniu cerca de 5 mil pessoas. Já em setembro de 2026, a décima edição manteve essa lógica e aumentou a escala. O balanço divulgado após o evento aponta quase 13 mil participantes credenciados ao longo dos cinco dias. Eles vieram de todos os 26 estados brasileiros e de 16 países, e representaram 479 cidades do Brasil.
O volume de conteúdo acompanhou o crescimento, foram mais de 1.300 atividades, entre palestras, painéis e experiências. Além disso, segundo o balanço, cerca de um quarto do público foi formado por tomadores de decisão. Isso mostra que o festival atrai quem tem poder de escolha e que esse perfil considera a viagem um bom investimento de tempo.
Há lições práticas para quem cria eventos, mesmo em formatos bem menores. A primeira é que o espaço conta a história do tema. Falar de inovação em uma cidade construída em torno da eletrônica reforça a mensagem sem precisar de um slide. A segunda é que, quando as sessões estão em pontos diferentes, as pessoas caminham, se cruzam e conversam, e boa parte do networking nasce nesse trajeto.
A terceira lição é sobre logística, que é o preço de ser irreverente. Espalhar um evento por uma cidade exige deslocamento bem resolvido, sinalização clara e parceiros que ajudem a conectar os pontos. Em 2026, por exemplo, a edição contou com veículos operando como transporte oficial entre os locais. E a quarta é a inclusão, mapas táteis, Libras e programação para crianças reforçam que a organização de um evento precisa pensar em todas as pessoas que vão viver e passar por ali.
O HackTown não é um modelo para copiar, mas a lição que fica para quem organiza eventos, de qualquer tamanho, é outra. Antes de definir palco, patrocínio ou programação, existe uma pergunta que incomoda e ordena todo o resto. O que só poderia ser feito aqui, por nós, agora? A resposta é o que faz as pessoas atravessarem a cidade, o estado ou o país, em vez de ficarem em casa.
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