
Existe uma contradição curiosa acontecendo diante dos nossos olhos.
Quanto mais avançamos tecnologicamente, mais valiosas se tornam as experiências que a tecnologia não consegue reproduzir.
Nos últimos dois anos, a inteligência artificial deixou de ser uma promessa para se tornar parte da rotina de milhões de pessoas. Ela escreve textos, produz imagens, cria apresentações, responde clientes, analisa dados e, em muitos casos, faz tudo isso com uma eficiência impressionante. O impacto é tão significativo que já não discutimos mais se a IA vai transformar o mercado. Discutimos apenas a velocidade dessa transformação.
Mas toda grande revolução produz efeitos colaterais.
Se qualquer pessoa pode produzir conteúdo sofisticado em poucos minutos, a abundância deixa de ser um diferencial. E quando a produção de informação se torna praticamente ilimitada, surge um problema inevitável: em quem confiar?
Não parece coincidência que, justamente no momento em que vivemos a explosão da inteligência artificial, estejamos assistindo também a uma valorização das experiências presenciais.

Os números ajudam a explicar esse movimento. Segundo o Freeman Trust Report, 77% das pessoas afirmam confiar mais em uma marca após interagir com ela em um evento presencial. Em outra pesquisa, 80% dos participantes apontam os eventos como o canal de marketing mais confiável disponível atualmente.
À primeira vista, esses dados podem parecer surpreendentes. Afinal, vivemos em uma época em que praticamente tudo está a um clique de distância. Podemos assistir palestras online, conversar por vídeo com pessoas do outro lado do mundo e consumir uma quantidade infinita de conteúdo sem sair de casa. Sob uma lógica puramente racional, os eventos presenciais deveriam perder relevância.
Mas isso parte de uma premissa equivocada: a de que as pessoas participam de eventos para consumir conteúdo.
Não participam.
Ou, pelo menos, não apenas por isso.
Se fosse apenas uma questão de acesso à informação, dificilmente milhares de executivos atravessariam cidades, estados e países para passar dois dias dentro de um centro de convenções. O conteúdo está disponível em livros, podcasts, newsletters, vídeos e, agora, também nas ferramentas de inteligência artificial.
O que continua escasso não é informação. É interação humana.
É a oportunidade de conversar com alguém que enfrenta desafios semelhantes. De trocar experiências sem filtros. De testar ideias. De criar relações que dificilmente surgiriam em um ambiente digital.
Talvez seja por isso que uma das maiores transformações do mercado de eventos esteja acontecendo longe dos palcos.
Durante muito tempo, o sucesso de um evento foi medido pela qualidade de sua programação. A lógica era simples: quanto melhores os palestrantes, melhor o evento.
Hoje, essa lógica parece insuficiente.

Os dados mais recentes da Bizzabo mostram que 83% dos participantes consideram o networking um fator determinante para decidir participar de um evento. Entre os organizadores, 87% afirmam que criar oportunidades de conexão é um dos principais indicadores de sucesso.
O que esses números revelam é uma mudança importante de mentalidade, as pessoas não estão mais viajando para ouvir especialistas e sim para encontrar pessoas.
O conteúdo continua sendo necessário. Ele funciona como um catalisador. Cria contexto, provoca reflexões e reúne interesses em comum. Mas o valor percebido está cada vez mais concentrado nas conversas que acontecem antes, durante e depois das apresentações.
Em outras palavras: o networking deixou de ser consequência da experiência. Tornou-se parte central do produto.
Essa percepção tem levado alguns dos principais eventos do mercado a repensarem completamente seu desenho.
O CMO Summit é um exemplo interessante desse movimento. Desde suas primeiras edições, o evento foi construído com a ambição de reunir lideranças de marketing. Mas, nos últimos anos, a discussão deixou de ser apenas quem estaria no palco e passou a considerar, com a mesma importância, quem estaria na plateia e como essas pessoas se conectariam entre si.
A tecnologia passou a desempenhar um papel fundamental nesse processo. Ferramentas de matchmaking, agendas inteligentes e mecanismos de agendamento de reuniões foram incorporados à experiência para aumentar a probabilidade de encontros relevantes acontecerem. Na edição de 2026, mais de duas mil reuniões foram agendadas antes mesmo da abertura do evento.
O dado é relevante não apenas pelo volume, mas pelo que ele representa. Durante décadas, a indústria de eventos dedicou seus esforços a organizar feira e conteúdo. Agora, ela começa a organizar conexões, o que antes era visto como algo exclusivo de eventos menores.
A diferença parece sutil, mas não é. Conteúdo gera atenção, já as conexões geram confiança. E confiança talvez seja o recurso mais valioso da economia contemporânea.
Vivemos um momento em que marcas disputam atenção com algoritmos, criadores de conteúdo, plataformas digitais e uma quantidade praticamente infinita de estímulos. Nesse cenário, a capacidade de reunir pessoas em torno de interesses comuns deixa de ser apenas uma estratégia de marketing. Passa a ser uma vantagem competitiva.
A inteligência artificial continuará transformando a forma como produzimos e consumimos informação. Não há dúvida sobre isso.
O que talvez ainda não esteja tão claro é que essa mesma transformação tende a aumentar o valor das experiências presenciais.
Porque, no fim das contas, confiança não é construída por um algoritmo.
Ela continua surgindo da forma mais antiga que conhecemos: quando pessoas encontram pessoas.

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