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Home > Artigos > Hilaine Yaccoub > Políticas Públicas para a chamada “Nova Classe Média” ou mais uma história para boi dormir?

Hilaine Yaccoub

Políticas Públicas para a chamada “Nova Classe Média” ou mais uma história para boi dormir?

Postado por Hilaine Yaccoub - 12/08/2011
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Por Hilaine Yaccoub*

No último dia 8 de agosto, foi realizado em Brasília o evento intitulado “A Média faz a diferença: Origens e desafios da Nova Classe Média Brasileira”, organizado pela Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, sob chefia do ministro Moreira Franco. Alguns palestrantes foram convidados a falar sobre temas relevantes ao assunto, como por exemplo, Identidade e Valores da Nova Classe Média, Consequências do Surgimento da Nova Classe Média e Políticas Públicas para a Nova Classe Média. Sendo uma antropóloga cujo tema de pesquisa é este grupo, que analiso à luz da teoria da antropologia do consumo, fiquei um pouco surpresa com algumas questões.

Primeiramente, com o fato de nenhum dos participantes levantar qualquer questionamento sobre a nomenclatura utilizada, que acredito ser forçada. Explico adiante. Segundo, como o evento não apresentou uma análise sociocultural mais aprofundada, ficou na mão de economistas e tecnocratas que, no final, demonizaram o “consumismo exacerbado” desse grupo emergente. Assim, o problema no trânsito com engarrafamentos gigantescos, ou o caos nos aeroportos, são causados pelos pobres emergentes que passaram a ter carros e viajar mais.

Como se não bastasse a culpa no presente ainda recaiu uma possível acusação futura para a falta de energia elétrica suficiente para manter todos os eletrodomésticos ligados, e ainda, a grande emissão de gás carbônico oriundo do aumento de voos e carros nas ruas. Ora, será que eles não sabem que o consumo energético em larga escala não está relacionado com o consumo residencial? E quanto aos altos fornos? E as refinarias? E as siderurgias?

Quanto à classificação do grupo, acredito que o termo utilizado não reflete a realidade. Ser da classe média é muito mais do que chegar a um nível de renda e acesso a crédito, o Critério Brasil, apesar de ainda ser utilizado não traduz com exatidão níveis sociais. De acordo com o sociólogo Jessé Souza, em seu livro "Os Batalhadores", para haver uma classificação social “é necessário haver uma transferência de valores imateriais na reprodução das classes sociais”, havendo reprodução social. Pertencer a uma classe está muito além da posse de determinados bens de consumo. Há outros capitais inseridos neste contexto, como capital cultural, social etc.

Não há dúvidas que este determinado grupo, oriundo de estratos populares, de fato ascendeu socialmente. Segundo dados divulgados no evento, cerca de 30 milhões de habitantes experimentaram esta ascensão, somando 100 milhões de brasileiros. Isto representa cerca de 52% da população. Esses índices são festejados, pois são tratados como o grande legado do governo Lula, que deixou um país menos pobre, com brasileiros felizes realizando suas compras. Festejados por um lado, culpados por outro... e o paradoxo se perpetua.

Obviamente, há que se pensar na sustentabilidade econômica e ambiental. O endividamento é uma ameaça iminente, mas o mais curioso é que, em vez do discurso pronunciado por especialistas ser de que todos (independente do estrato social) devem atentar para o consumo desmedido movido por impulsos e mudar suas atitudes. O grande vilão é o personagem que representa o sucesso do país. É o consumidor da tal nova classe média, que agora poderá chegar ao trabalho na hora certa, uma vez que o carro que acabou de comprar parcelado em 60 vezes permitirá que se organize melhor. E que, ao não chegar tão cansado e esgotado, poderá produzir mais.

O que é luxo para uns é necessidade para outros. Vamos caminhando, tentando entender valores e comportamentos de consumo destes “outros”, aqueles que até bem pouco tempo eram invisíveis para indústrias, institutos de pesquisa e publicitários. Ganha-se dinheiro entrando em suas casas, produtos e serviços mais adequados são desenvolvidos, encantam-se trabalhadores, chefes de família, mulheres economicamente ativas, abrem-se universidades e cursos profissionalizantes mais baratos e um grande número de pesquisas são realizadas, na tentativa que dados e estatísticas tentem revelar perfis de consumidores.

Esta observação, a mais humanizada do evento, ficou a cargo do sócio-diretor do Instituto de Pesquisas Datapopular, Renato Meirelles. Ao tentar representar esse estrato social, revelou histórias, tentou dar rosto aqueles “outros”, que justificam e planejam seu consumo de forma diferente. Tentou mas não conseguiu, pois o tempo era escasso além do que não lhe competia qualquer análise antropológica. Faltava alguém para aprofundar questões, desafiar para um pensamento mais crítico.

O subsecretário da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República preocupou-se em fazer um panorama temporal da pobreza. Mostrou taxas de crescimento da renda per capita, assim como índices de evolução da distribuição de renda no Brasil, e, logo em seguida, apresentou os desafios em se pesquisar um grupo tão heterogêneo, incluindo sua própria definição. Que grupo é esse, afinal? Entender valores, preferências identidades, comportamentos ou quais seriam os determinantes da ascensão da chamada nova classe média são outros objetivos revelados. A partir de todos esses conhecimentos, partiria-se para o desenvolvimento de politicas públicas mais adequadas.

Fiquei receosa. Políticas públicas adequadas para quem? O evento foi o reflexo da elite falando dos tais “outros”, aqueles pobres que agora acham que através do consumo vão se distinguir e conseguir status. Coitados! Se o embasamento intelectual para o desenvolvimento destas tais políticas públicas não incluirem um profissional das ciências humanas que traduza de forma coerente e real estes valores socioculturais, infelizmente teremos mais um episódio frustrado, uma nova tentativa de se fazer política para a maioria. Ou como dizia-se "no popular", mais uma conversa para boi dormir.

* Hilaine Yaccoub é antropóloga especializada em Antropologia do Consumo, doutoranda pela Universidade Federal Fluminense e tem como objeto de pesquisa o “gato” de energia elétrica e consumo popular. kulaconsultoria@gmail.com

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