Home > Artigos > Guilherme de Almeida Prado > Precisamos ver o Brasil com olhos de estrangeiro
Por Guilherme de Almeida Prado*
Tive a oportunidade de visitar quatro diferentes cidades durante a Copa da África do Sul. Foram quatro diferentes aeroportos em dias de jogo. E qual foi o aeroporto com maiores filas e desorganização? O aeroporto de Guarulhos, no Brasil, que não sediava nenhum grande evento. O assunto é velho e recorrente e não quero me alongar. Entretanto, mais preocupante que a infraestrutura é o treinamento de todos os profissionais que estarão direta ou indiretamente envolvidos na organização e recepção de turistas. Diferente da África do Sul, o idioma no Brasil será um desafio muito maior, já que a maioria da nossa população não fala inglês.
Outro desafio está no treinamento das equipes temporárias. Como haverá um grande contingente de pessoas que só será contratado para o evento em si, será necessário um grande investimento em treinamento. Algumas experiências que vivi na África do Sul relatam bem isso: em um dos hotéis – quatro estrelas – a garçonete, que servia o café da manhã, retirou um dos meus pratos e, sem querer, encostou o dedo na manteiga do prato. Discretamente, ela limpou a mão no meu guardanapo de pano e não o retirou da mesa.
As ruas estavam extremamente policiadas. Porém, a sensação era de que grande parte do contingente veio do interior e não conheciam as cidades. Perguntei para três policiais distintos sobre locais importantes das cidades e nenhum sabia informar. Estive no posto de informações em um dos aeroportos e – acredite – a pessoa não sabia informar itens básicos. Outro policial para o qual perguntei sobre onde encontrar um taxi, quis agenciar uma corrida com um amigo dele.
Em outro hotel, alguns hóspedes tiveram seus pertences roubados de dentro do cofre. Resposta do hotel? Temos dezenas de funcionários e não podemos saber quem foi. Em uma das cidades uma linha de ônibus foi inaugurada especificamente para rodar nos pontos turísticos. Excelente iniciativa. Mas, quase ninguém conhecia ou sabia informar. Enfim, alguns são erros simples, mas que ajudam a formar a impressão sobre o país.
Com certeza, os investimentos para a Copa e Olimpíadas não retornam no curto prazo dos eventos. Logo, precisamos aproveitar a oportunidade para vender o nosso país da melhor forma possível. E, infelizmente, estamos longe disso. Uma sugestão simples é contratar visitantes misteriosos – que não falam português – para vivenciarem experiências distintas em nossas cidades. E isso deve ser feito agora. Pode ter certeza que teremos grandes surpresas.
Desde sinalizações apenas em português, portões de embarque que são alterados no último minuto e apenas avisados na língua local, táxis piratas que caçam turistas nos aeroportos, garçons de restaurantes que não falam uma palavra de inglês ou outro idioma, ausência de mapas das cidades, transporte público mal sinalizado – experimente subir num ônibus falando inglês.
Já tive a oportunidade de tentar ser ludibriado por taxis que desligam o taxímetro ou inventam custos adicionais em meu próprio país e falando português. Imagine, então, quem é de fora? Enfim, precisamos mapear urgentemente nossos problemas para podermos direcionar os investimentos. Para isso, precisamos enxergar nosso país e nossas cidades com os olhos de quem vêm de fora.
*Guilherme de Almeida Prado é diretor da Plano1 e Presidente da Ampro.
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